O curso Unibe Escola Pré-Militar, com unidade em Florianópolis, foi denunciado ao Ministério Público de Santa Catarina após um vídeo mostrar crianças e pré-adolescentes uniformizados entoando cânticos com conteúdo violento durante uma atividade da instituição.
No vídeo, os alunos repetem versos como “bate na cara, espanca até matar; arranca a cabeça e joga ela no mar” e “o interrogatório é muito fácil de fazer; eu pego o inimigo e dou porrada até morrer”. As imagens foram divulgadas pelo vereador de Florianópolis Bruno Ziliotto (PT), que formalizou a denúncia ao MPSC por possível apologia à violência.
ASSISTA AO VÍDEO
O que diz a escola
Em nota, a direção do curso Unibe Escola Pré-Militar afirmou que os cânticos fazem parte do chamado TFM (Treinamento Físico Militar), prática que, segundo a instituição, é “amplamente utilizada pelas Forças Armadas e instituições militares”.
Conforme o comunicado, as canções teriam “caráter motivacional” e servem para “manter o ritmo, a união do grupo e o foco durante as atividades”. A escola afirmou ainda que um dos instrutores é do Exército e que está “averiguando se de fato ele puxou mesmo a canção”.
A Unibe declarou que trabalha com alunos a partir de 5 anos de idade e que o ambiente é “educativo, com orientação e acompanhamento”. Segundo a nota, os jovens “não estão sendo expostos a algo prejudicial, mas sim sendo preparados, com responsabilidade, para desafios futuros”.
O que diz o vereador
O vereador Bruno Ziliotto afirmou que a escola “perdeu a oportunidade de se retratar e acabou escolhendo dissimular a situação”. Segundo o parlamentar, a conduta pode configurar crime de incitação à prática de delito, conforme previsto no artigo 286 do Código Penal, além de possível corrupção de menores, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente.
“Depois de acionar o Ministério Público de SC, registramos Boletim de Ocorrência e seguiremos denunciando a todas as autoridades competentes para apurar e responsabilizar os envolvidos. Não podemos tolerar a manipulação de menores de idade em favor de um projeto fascista de educação”, disse Ziliotto.
Histórico
A Unibe é uma rede de cursos preparatórios para carreiras militares com unidades em diversos estados do Brasil. Segundo o site da instituição, o curso atende jovens entre 14 e 17 anos para preparação para concursos das Forças Armadas. Porém, conforme a denúncia do vereador, o vídeo mostra participantes com idade “claramente inferior” à faixa etária informada.
Em 2022, uma unidade da Unibe no Recife (PE) enfrentou polêmica semelhante quando um vídeo mostrou alunos entoando cânticos violentos durante atividade. Na ocasião, a escola classificou o episódio como uma “infelicidade” e afirmou ter demitido o instrutor responsável.
Segundo o Ministério da Educação, a oferta de cursos livres de qualquer natureza não precisa ser autorizada ou reconhecida pelos órgãos de regulação dos sistemas de ensino.
Próximos passos
Até a última atualização, a denúncia havia sido formalizada junto ao Ministério Público de Santa Catarina e um Boletim de Ocorrência foi registrado. Não havia informação sobre a abertura de inquérito ou manifestação oficial do MPSC sobre o caso. A Unibe não informou se houve afastamento de instrutores.
Confira a íntegra da nota da escola
“Diante dos comentários que vêm sendo feitos sobre crianças e adolescentes cantando canções de TFM (Treinamento Físico Militar), é importante esclarecer alguns pontos antes de qualquer julgamento precipitado.
O TFM é uma prática amplamente utilizada pelas Forças Armadas e instituições militares com o objetivo de desenvolver disciplina, condicionamento físico, resistência, trabalho em equipe e, principalmente, valores como respeito, hierarquia e superação. As canções entoadas durante os treinos não têm caráter ofensivo, mas sim motivacional, ajudando a manter o ritmo, a união do grupo e o foco durante as atividades. Vale ressaltar que são canções que eles cantam no exército. Como um dos nossos instrutores é do exército, pode ter sido puxada a canção, mas estamos averiguando se de fato ele puxou mesmo a canção.
No caso desses jovens, trata-se de alunos que estão se preparando para uma possível carreira militar. Eles participam de um ambiente educativo, com orientação e acompanhamento, onde aprendem não apenas atividades físicas, mas também valores fundamentais para a formação de cidadãos responsáveis e comprometidos.
É importante ressaltar que disciplina, organização e respeito nunca foram e nunca serão aspectos negativos na formação de um jovem. Pelo contrário, são pilares que contribuem para o crescimento pessoal e profissional.
Antes de criticar, é essencial buscar entender o contexto. Esses jovens não estão sendo expostos a algo prejudicial, mas sim sendo preparados, com responsabilidade, para desafios futuros que exigem caráter, preparo físico e mental.
Respeitar esse processo é também valorizar o esforço, o sonho e a dedicação de cada aluno que escolhe trilhar esse caminho para suas vidas.
Não temos lado político.
Nosso público-alvo é tirar os alunos da rua e ensinar as matérias específicas de concursos, como português, matemática, química, física, inglês, treinamento físico, atendimento com a psicóloga para avaliação do rendimento do aluno na escola, seja particular ou pública. Não temos idade pré-estabelecida. Hoje trabalhamos com crianças de 5 anos em diante.”

