Mansão em Tijucas: Polícia Civil captura de helicóptero criminoso mais procurado do RS

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O Jornal Razão teve acesso às imagens que mostram a mansão onde o criminoso mais procurado do Rio Grande do Sul se escondia em Tijucas, na Grande Florianópolis, e também o momento em que ele é conduzido preso em aeronave utilizada na operação. É neste imóvel que Tiago Benhur Flores Pereira, o Benhur, apontado como líder da maior facção criminosa do Rio Grande do Sul e condenado a mais de 175 anos de prisão, foi surpreendido por agentes do Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (Denarc) na noite desta quinta-feira (12).

A operação contou com apoio da Polícia Civil de Santa Catarina e mobilizou aeronave para garantir a captura do foragido. As imagens revelam o padrão de vida mantido pelo criminoso enquanto se escondia da Justiça no litoral catarinense.

Segundo a polícia, Benhur é apontado como o principal nome da facção Os Manos, organização criminosa com origem no Vale do Sinos que domina o tráfico de drogas, o comércio ilegal de armas e a lavagem de dinheiro em boa parte do território gaúcho. O grupo tem ramificações em cidades de Santa Catarina, do Paraná, do Mato Grosso do Sul e até em países vizinhos como Paraguai e Uruguai.

O nome de Benhur consta em relatório do Ministério da Justiça e Segurança Pública como um dos criminosos mais procurados do estado.

Ficha criminal que impressiona

A ficha criminal do líder dos Manos impressiona pela gravidade. As condenações somam mais de 175 anos de prisão por roubos, associação ao tráfico de drogas, tráfico e receptação. Benhur também responde por organização criminosa, facilitação de fuga de presos e lavagem de dinheiro.

O episódio mais audacioso atribuído a ele aconteceu em 2017, quando a Polícia Civil desvendou a construção de um túnel que partia de uma casa na zona leste de Porto Alegre em direção à Cadeia Pública, o antigo Presídio Central. A obra foi planejada para permitir a fuga em massa de aproximadamente 1.050 detentos durante o Carnaval.

A escavação já havia avançado 47 metros quando o Denarc deflagrou a Operação Túnel Santo. Conforme o Ministério Público do RS, Benhur foi apontado como mentor e financiador do plano, que custou cerca de R$ 1 milhão. Os operários clandestinos, chamados de “tatus”, recebiam ao menos R$ 1 mil por semana, além de moradia e alimentação.

Vizinhos da região chegaram a sentir tremores vindos debaixo da terra e ouvir barulho de obra incessante, mas nenhuma reforma era vista do lado de fora do imóvel. A terra retirada era escondida dentro das próprias casas usadas pelo esquema.

Presídios federais de segurança máxima

Após a descoberta do túnel, Benhur foi transferido para o sistema penitenciário federal. Passou pela Penitenciária Federal de Mossoró (RN) e depois pela Penitenciária Federal de Campo Grande (MS), ambas unidades de segurança máxima. O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul determinou a remoção por considerar que a permanência dele no sistema estadual representava risco concreto à segurança pública, dada sua posição de comando dentro da facção.

Mesmo preso em regime disciplinar diferenciado, Benhur continuou tentando retornar ao Rio Grande do Sul. Em janeiro de 2022, o Superior Tribunal de Justiça negou pedido de liminar para que ele voltasse à Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc). O criminoso alegava problemas de saúde na coluna e dizia precisar de atendimento com médico de sua confiança.

Rompeu a tornozeleira e sumiu

A situação mudou quando Benhur obteve prisão domiciliar humanitária para realizar uma cirurgia. Dois dias depois de receber a tornozeleira eletrônica, o dispositivo emitiu alerta de rompimento. Benhur desapareceu. Dois mandados de prisão foram expedidos pela Vara de Execuções Criminais, mas o líder dos Manos não foi localizado.

Com Benhur foragido, a facção seguiu operando. Em dezembro de 2024, o Denarc deflagrou a Operação Tríade, que mirou diretamente a estrutura comandada por ele. Cerca de 200 policiais civis cumpriram 94 medidas cautelares em nove cidades gaúchas. Foram presas 20 pessoas e apreendidas armas, drogas, munições e dinheiro. Benhur, porém, não estava entre os capturados.

Já em outubro de 2025, outra ofensiva do Denarc, a Operação Turrim Lavare, atingiu a rede de lavagem de dinheiro ligada a facções gaúchas. A Justiça determinou o bloqueio de R$ 120 milhões. A ação teve reflexos em cidades de Santa Catarina e reforçou a cooperação entre as polícias dos dois estados.

Litoral de SC virou rota de fuga de criminosos gaúchos

A captura de Benhur em uma mansão em Tijucas não é um caso isolado. Nos últimos anos, o litoral catarinense se tornou rota de fuga para líderes de facções gaúchas. Em março de 2021, outro criminoso apontado como o mais procurado do RS foi preso em um apartamento de alto padrão em Itapema, de frente para o mar, com veículo de luxo na garagem. Em agosto de 2019, Vladimir Cardoso Soares, o Xu, também líder de facção, foi capturado em Laguna. Em 2024, mais um foragido ligado a organizações do RS foi localizado em Palhoça.

O padrão se repete: criminosos com condenações pesadas fogem do sistema gaúcho e se instalam em imóveis de alto padrão no litoral de Santa Catarina, apostando na distância e na mudança de jurisdição para dificultar a localização.

A facção mais antiga do Rio Grande do Sul

A facção Os Manos é considerada a mais antiga entre as organizações criminosas criadas no Rio Grande do Sul. Nasceu dentro do sistema prisional gaúcho, a partir da Falange Gaúcha, e cresceu sob o comando de figuras como Dilonei Francisco Melara, morto em 2005. Ao longo dos anos, a organização passou a funcionar como um colegiado, com líderes responsáveis por decisões sobre punições, investimentos e contabilidade do crime.

A atuação vai além do tráfico. A facção opera em roubos a bancos e caixas eletrônicos, extorsão, agiotagem e controle de presídios. As operações da Polícia Civil nos últimos anos revelaram movimentações financeiras milionárias e uma estrutura que inclui propriedades rurais, veículos de luxo e contas bancárias usadas para lavagem de dinheiro.

Até a última atualização, Benhur havia sido preso e permanecia à disposição da Justiça. A Polícia Civil do Rio Grande do Sul não divulgou detalhes sobre o local exato para onde o criminoso será transferido, por questões de segurança. O caso segue sob investigação do Denarc.

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