Um empresário foi preso preventivamente em Itapema, no Litoral de Santa Catarina, após ser denunciado por estuprar e espancar uma jovem de 24 anos. A prisão foi mantida pela Justiça diante da gravidade dos fatos, do risco concreto de reiteração criminosa e do histórico do investigado, que já possui diversas passagens policiais e condenações, inclusive por crimes cometidos contra mulheres. No momento das novas agressões, ele estava em livramento condicional.
A vítima relatou que o relacionamento durou poucos meses, mas rapidamente se transformou em um ciclo contínuo de violência. Segundo ela, cerca de dois meses após o início da relação, começaram as agressões físicas, psicológicas e morais. Desde o começo, afirmou ter sido coagida a morar com o agressor, o que resultou em afastamento da família e de pessoas próximas, facilitando o controle absoluto exercido por ele.
De acordo com o depoimento, as agressões eram frequentes e quase sempre motivadas por crises de ciúmes infundadas. Situações criadas na mente do agressor, como supostas conversas no WhatsApp, olhares ou interações no trabalho, eram suficientes para desencadear episódios de violência. A vítima afirmou que essas crises terminavam em espancamentos, ameaças e humilhações prolongadas.
“Ele adorava me jogar no chão, pisar na minha cabeça, bater minha cabeça na parede. Eu apanhava por muito tempo, não era uma agressão rápida.”
No relato prestado às autoridades, a jovem descreveu episódios reiterados de extrema brutalidade. Ela afirmou que foi enforcada diversas vezes, puxada pelos cabelos, sufocada e jogada ao chão. Em algumas ocasiões, o agressor teria pisado sobre sua cabeça, desferindo chutes e socos. As agressões, segundo ela, não eram rápidas ou isoladas, mas duravam longos períodos, com o objetivo de castigá-la, intimidá-la e silenciá-la.
“Eu era humilhada todos os dias. Ele me chamava de lixo, de vagabunda, dizia que eu não valia nada. Era para me destruir por dentro.”
A violência verbal era diária. A vítima relatou que era constantemente ofendida com palavras de baixo calão, como “lixo”, “puta” e “vagabunda”. Segundo ela, o agressor utilizava essas ofensas para desqualificá-la, destruir sua autoestima e reforçar a sensação de submissão e culpa.

Um dos episódios descritos chamou atenção pelo caráter simbólico da violência. A vítima afirmou que o agressor apertou seus seios com força e disse que iria “acabar com o único presente que o ex lhe deu”, referindo-se às próteses de silicone. O ato, segundo ela, foi acompanhado de ameaças e teve como objetivo humilhá-la e causar dor física e emocional.
A jovem também descreveu episódios em que o agressor utilizava objetos para intimidá-la. Um dos relatos mais graves envolve uma ameaça dentro do banheiro, enquanto ela tomava banho.
“Teve um momento em que eu estava nua no banho e ele entrou no box com uma tesoura, colocou no meu pescoço e disse que ia me matar.”
Além das agressões físicas e psicológicas, a jovem relatou ter sido vítima de violência sexual reiterada. Segundo o depoimento, ela era forçada a manter relações sexuais contra a própria vontade, sempre mediante violência, intimidação ou após episódios de espancamento. A vítima afirmou que não tinha liberdade para recusar e que vivia sob constante medo de novas agressões ou até de ser morta.
As ameaças eram constantes e direcionadas também à família da vítima. Ela relatou que o agressor dizia que poderia matá-la e fazer mal a seus familiares caso tentasse sair da relação ou procurar ajuda. Esse cenário de terror fez com que permanecesse em silêncio por meses, vivendo em estado permanente de alerta.
O controle da rotina era absoluto. Segundo a vítima, o agressor restringia sua liberdade de ir e vir, permitindo que saísse sozinha apenas para o trabalho. Outros compromissos, como estudos, academia, cuidados pessoais ou encontros com amigas, eram proibidos ou só autorizados com a presença dele. O celular era monitorado, e ela era constantemente vigiada.
Em alguns episódios, as agressões atingiram tal intensidade que a vítima passou mal fisicamente. Ela relatou reações involuntárias, como vômitos, após sessões de violência.
O episódio que motivou a prisão ocorreu quando a jovem retornou do trabalho. Segundo o relato, o agressor passou a acusá-la injustificadamente de manter conversas com terceiros no WhatsApp, insinuando traição. A partir dessas acusações, ele teria iniciado novas agressões físicas, vindo a enforcá-la novamente e, na sequência, a constrangê-la, mediante violência, à prática de ato sexual contra sua vontade.
As imagens anexadas ao boletim de ocorrência, conforme registrado nos autos, mostram diversas marcas de hematomas pelo corpo da vítima, o que, segundo a Justiça, confere verossimilhança aos relatos apresentados.
A prisão em flagrante foi convertida em prisão preventiva após audiência de custódia. A decisão judicial destacou que os crimes imputados incluem lesão corporal, ameaça e estupro, todos praticados no contexto de violência doméstica, com penas elevadas.
Pesou de forma determinante contra o investigado o seu histórico criminal. Conforme os registros judiciais, ele é reincidente específico em crimes de violência contra a mulher, já tendo sido condenado anteriormente por lesão corporal, ameaça, sequestro e cárcere privado no âmbito da Lei Maria da Penha. Além disso, possui condenações e passagens por tráfico de drogas, receptação, furto e outros delitos, além de responder a inquéritos e ações penais em andamento.
No momento em que cometeu os novos crimes, João Gabriel Dorneles Santangelo estava em livramento condicional, o que reforçou o entendimento da Justiça de que havia risco concreto de reiteração criminosa. Diante desse cenário, foi considerado que medidas cautelares alternativas seriam insuficientes para proteger a vítima e garantir a ordem pública.
Com base na gravidade concreta dos fatos, no modo de agir do agressor e em seu histórico de reincidência, a Justiça decidiu manter a prisão preventiva. O processo segue em tramitação na Vara Criminal da Comarca de Itapema, enquanto a vítima permanece sob proteção.
O caso evidencia, mais uma vez, a dinâmica da violência doméstica, marcada por controle, isolamento, medo e escalada progressiva da brutalidade. A decisão de tornar a denúncia pública foi, segundo a vítima, uma forma de romper o silêncio, buscar justiça e alertar outras mulheres sobre sinais de relacionamentos abusivos que podem evoluir rapidamente para situações extremas.

