Santa Catarina vive um paradoxo. Enquanto o Estado oferta mais de 8 mil vagas de emprego por meio de feirões organizados pelo Sistema Nacional de Emprego (Sine/SC), um grupo de manifestantes decidiu, no sábado (10), ocupar um supermercado atacadista em São José, na Grande Florianópolis, exigindo cestas básicas.
Os feirões, realizados em cidades como Garopaba, Timbó e Joaçaba/Herval d’Oeste durante o mês de maio, têm o objetivo declarado de “facilitar o acesso ao emprego” e criar, segundo o diretor de Emprego e Renda da Secretaria de Indústria, Comércio e Serviço, Carlos Alberto Arns Filho, “conexões reais entre empresas e candidatos”. O secretário Silvio Dreveck reforçou que as ações incluem a presença das empresas nos eventos, otimizando a contratação imediata.
Porém, do lado de fora do mercado, a realidade enfrentada por parte da população parece outra.
Cerca de 60 pessoas, lideradas por movimentos sociais como o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) e o Movimento de Mulheres Olga Benario, invadiram o estabelecimento no bairro Kobrasol. Com faixas, cartazes e palavras de ordem, eles afirmaram que a ação é um grito de socorro contra a fome, os baixos salários e os altos preços dos alimentos. Segundo informações da gerência do local e de testemunhas, os manifestantes bloquearam os caixas e exigiram não só cestas básicas, mas também carne e vales-alimentação.
A tensão foi aumentando, e a Polícia Militar precisou ser acionada. Um cliente chegou a passar mal durante o tumulto e recebeu atendimento do Samu. Ainda segundo a PM, funcionários relataram que se sentiram intimidados pela postura do grupo.
O Delegado Ulisses Gabriel afirmou nas redes sociais que o governador Jorginho Mello determinou uma “atuação firme” e a abertura de inquérito para identificar os responsáveis pelo ato. “Já determinei a instauração de um inquérito para não apenas identificar as lideranças, mas também os autores”, declarou o delegado.
Apesar da tensão, o MLB divulgou uma nota informando que, diante da mobilização em São José e em outras 20 ações pelo país, conseguiu a promessa de uma reunião para discutir a entrega de até 1000 cestas básicas com itens de hortifruti, proteínas e leite.
O movimento também justificou a ação com números: segundo eles, o Brasil desperdiça anualmente 27 milhões de toneladas de alimentos, enquanto cerca de 11 milhões de mães chefes de família vivem a incerteza diária sobre a próxima refeição. “Enquanto poucos acumulam fortunas, milhões sobrevivem como podem. Queremos um país onde comer não seja um privilégio”, declarou uma das participantes.
