‘Você está cansada? outra rendeu 13 hoje’: como grupo criminoso explorava catarinenses na Irlanda

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Um esquema internacional de tráfico e exploração sexual de mulheres, que tinha como alvo jovens aliciadas em Santa Catarina, foi desarticulado pela Polícia Federal na última quarta-feira (3) durante a Operação Cassandra. O grupo mantinha vítimas em jornadas exaustivas na Irlanda e usava chantagens emocionais para estimular a competitividade entre elas.

De acordo com documentos do Ministério Público Federal, aos quais a NSC TV teve acesso, os suspeitos comparavam o desempenho das mulheres para pressioná-las. Em uma das mensagens reveladas, após uma vítima relatar cansaço, o homem apontado como líder respondeu que “uma colega realizava mais de 13 programas por dia sem reclamar”.

Como funcionava o esquema

As investigações mostram que os aliciadores agiam principalmente em baladas e clubes de Santa Catarina, oferecendo propostas para que jovens viajassem à Europa. Muitas das mulheres já sabiam que fariam programas, mas ao chegar em Dublin encontravam uma realidade muito mais dura do que a prometida.

Os programas eram agendados exclusivamente pelos integrantes da organização, que controlavam os celulares das vítimas. Elas não tinham autonomia para decidir o número de atendimentos, os horários ou os clientes.

O delegado da PF, Farnei Franco Siqueira, explicou que a atuação era organizada: “Se fazia essa oferta pelo perfil da menina, pelas características físicas e por uma série de circunstâncias. Mas era toda uma organização que tinha pessoas dedicadas a isso e que faziam, principalmente em clubes, essa busca”.

Relatos de vítimas

Em entrevista ao NSC, uma das mulheres contou que foi abordada por um dos suspeitos em uma casa noturna da Grande Florianópolis. Ao chegar em Dublin, foi obrigada a dividir moradia controlada pelo grupo e impedida de dormir em outros locais.

Segundo o relato, as jornadas de trabalho começavam por volta das 9h40 e podiam se estender até 3h ou 4h da madrugada, chegando a 18 horas seguidas. Houve situações em que ficaram até 24 horas sem dormir. “A privação de sono e o cansaço eram a pior parte. Também tinha agressão verbal. Se a gente fazia alguma coisa errada, ele [chefe da organização] gritava”, contou.

Apesar do dinheiro movimentado, a rotina abusiva levava muitas mulheres a desistirem. “Algumas meninas iam embora. Mas uma semana depois chegava mais”, relatou a vítima.

A operação

A Operação Cassandra cumpriu quatro mandados de prisão no Brasil e outros quatro em Dublin. Até agora, a Polícia Federal já identificou pelo menos 70 mulheres exploradas pelo grupo.

As investigações seguem em andamento para aprofundar a atuação da organização criminosa e identificar novos envolvidos.

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