“Se eu estivesse no lugar dele, queria um abraço”: mãe consola motorista após acidente matar sua filha em SC

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A morte de uma adolescente de 14 anos em Florianópolis transformou a dor de uma família em uma mensagem pública de empatia, solidariedade e humanidade. Maria Cristina Santana morreu após um acidente de trânsito no Sul da Ilha e, mesmo em meio ao luto, a mãe decidiu falar. Não para acusar, mas para acolher, conscientizar e dar sentido à perda. A entrevista foi concedida ao Floripa Mil Grau, parceiro do Jornal Razão.

O acidente ocorreu na noite de segunda-feira (12), na região da Tapera. Maria descia de bicicleta por uma rua lateral quando entrou na via principal e colidiu com um ônibus que passava pelo local. Segundo relatos de familiares e pessoas que presenciaram a cena, a bicicleta teria ficado sem freio. O impacto foi violento. Moradores chegaram a pensar, num primeiro momento, que o ônibus havia perdido alguma peça, tamanha a força da colisão.

A adolescente foi arremessada para o outro lado da rua e caiu no asfalto. Enquanto aguardavam o socorro, pessoas próximas tentaram ajudar. Testemunhas relataram que Maria estava muito agitada e se debatia, sendo necessário que quatro ou cinco pessoas a contivessem até a chegada do atendimento. O SAMU foi acionado por diversas ligações.

Após o atendimento inicial, Maria foi levada ao Hospital Infantil Joana de Gusmão. Dois dias depois, na quarta-feira (14), a família recebeu a confirmação da morte cerebral.

Na entrevista, a mãe relembrou os últimos momentos antes do acidente. Disse que a filha havia avisado que iria dormir na casa da avó, junto com o namorado e os irmãos, e que sairia apenas para comprar um refrigerante. Mesmo orientada a não ir de bicicleta, Maria acabou pegando a bike. Pouco depois, a ligação que nenhuma mãe espera. Do outro lado da linha, o filho mais novo, de 10 anos, avisava que a irmã havia sido atropelada e que ainda aguardavam o socorro.

Em meio ao relato, a mãe falou sobre o desespero, a espera e a angústia. Contou que ligou repetidas vezes pedindo ajuda, tentando entender por que o atendimento demorava tanto a chegar. Disse que, naquele momento, tudo o que existia era o medo de perder a filha ali, caída no chão.

Mesmo atravessando o pior momento de sua vida, a mãe fez questão de destacar a postura do motorista do ônibus envolvido no acidente. Segundo ela, o condutor permaneceu no local o tempo todo, prestou auxílio e ficou visivelmente abalado. Afirmou que ele não teve culpa e que sua vontade era confortá-lo.

“Eu fui atrás dele porque sabia que ele não tinha feito nada errado. Se eu estivesse no lugar dele, gostaria de um abraço, de um acolhimento”, relatou. Segundo a mãe, o local do acidente tinha curva, quebra-mola e pouca visibilidade para ambos os lados, o que reforça a avaliação de que se tratou de uma fatalidade.

Outro ponto que marcou a entrevista foi a decisão da família de autorizar a doação dos órgãos de Maria Cristina. A escolha, segundo a mãe, foi imediata e nunca foi motivo de dúvida. Ela afirmou que não fazia sentido deixar de doar algo que poderia salvar outras vidas.

“Ela não ia mais usar o coração, não ia usar as córneas. Por que não doar?”, questionou. Para a mãe, a doação deveria ser vista como um ato natural de amor ao próximo e não como algo assustador. Disse se incomodar com julgamentos e com a falta de empatia de pessoas que questionam decisões tomadas em meio a uma dor tão profunda.

Maria, segundo a mãe, era alegria constante. Uma menina comunicativa, carinhosa, sorridente, que parecia mais velha pela maturidade, mas mantinha a leveza e a doçura de uma adolescente. “Ela era fofa, divertida, fazia amizade em qualquer lugar”, relembrou.

A morte de Maria interrompeu uma vida cedo demais. Mas a forma como sua história foi compartilhada pela mãe transformou a tragédia em um chamado à empatia, ao respeito e à solidariedade. Uma lembrança de que, mesmo na dor mais extrema, ainda é possível escolher o amor.

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