O silêncio da madrugada no interior de Peritiba foi quebrado por gritos, disparos e pedidos de socorro. A professora Carla Denise Ely da Silva, de 31 anos, foi morta a tiros e golpes de canivete na entrada geral de acesso à comunidade de Linha Cruz e Souza, no Meio-Oeste catarinense. O crime ocorreu nas primeiras horas da manhã desta quinta-feira e é tratado como feminicídio.
A ocorrência mobilizou a Polícia Militar de Santa Catarina ainda antes do amanhecer. Conforme apurado com exclusividade pelo Jornal Razão, o chamado partiu de moradores que relataram disparos de arma de fogo e uma possível agressão grave em andamento. Quando a guarnição chegou ao endereço indicado, encontrou Carla já sem sinais vitais. O local foi imediatamente isolado para preservação da cena do crime.
Moradores relataram aos policiais que ouviram uma discussão intensa por volta das 4h50. Segundo o depoimento de uma vizinha, os gritos foram seguidos por barulhos de luta corporal e xingamentos. A movimentação teria durado entre cinco e dez minutos. Ainda conforme o relato, um vulto saiu correndo do terreno logo após o silêncio repentino. Ao descer para verificar o que havia ocorrido, a vizinha encontrou Carla caída, dando os últimos suspiros, e acionou a polícia.
A suspeita inicial apontava para o ex-marido da vítima, Jailson da Silva, natural de Ipumirim (SC). As informações repassadas por vizinhos indicavam que ele havia sido visto nas proximidades pouco antes do crime. Com base nesses dados, a guarnição iniciou buscas na região. Por volta das 6h, com auxílio de populares, o homem foi localizado na comunidade de Linha Bornhausen, nas proximidades da casa do pai da vítima.
Durante a abordagem, os policiais encontraram no bolso da calça do suspeito um canivete com lâmina de aproximadamente 15 a 20 centímetros, sujo de sangue. Ele foi detido no local. Conforme relato feito à polícia, cuja redação do Jornal Razão teve acesso com exclusividade, ele confessou o crime e afirmou que não aceitava o fim do relacionamento.
Segundo a versão apresentada pelo autor à Polícia Militar, ele foi até a residência de Carla e houve luta corporal. Ele afirmou que a vítima possuía uma arma de fogo e que teria tentado efetuar um disparo, mas a arma falhou. Ainda conforme o relato do suspeito, ele conseguiu tomar a arma, efetuou um tiro que atingiu o braço direito da professora e, em seguida, a matou com golpes de canivete.
Como “justificativa” para cometer o crime, Jailson alegou que estaria sofrendo ameaças por conta de supostas “dívidas relacionadas a drogas” que, segundo a versão apresentada por ele, seriam da ex-companheira. Disse ainda que o pai da vítima teria conhecimento dessas alegadas dívidas, mas teria ignorado a situação.
A cena encontrada pelos policiais levantou suspeitas de premeditação. Havia um pé de cabra próximo à janela ao lado da porta de acesso à residência. A energia elétrica estava desligada ou cortada, e um pano cobria a câmera de segurança que filmava a entrada da casa. A janela apresentava sinais de arrombamento. Esses indícios, conforme a Polícia Militar, apontam para a possibilidade de planejamento prévio do crime.
A Polícia Científica foi acionada para realizar a perícia no local. O corpo de Carla foi recolhido após os procedimentos técnicos. A arma de fogo encontrada na residência também foi apreendida. O celular e a carteira da vítima foram entregues na delegacia junto com o autor, que foi conduzido à Delegacia da Polícia Civil de Concórdia para lavratura do auto de prisão em flagrante.
Antes de ser apresentado à autoridade policial, o suspeito foi encaminhado ao hospital de Peritiba para realização de exame de corpo de delito. Ele permanece à disposição da Justiça.
Carla integrava o quadro do Magistério Municipal e atuava em uma creche na região. Reconhecida pelo carinho com alunos e colegas, era descrita por familiares e moradores como dedicada e paciente. Em redes sociais, pais de alunos relataram que ela “ensinava com muito amor e paciência”. A professora tinha um filho com Jailson da Silva.
Em respeito à memória da servidora pública, a Administração Municipal cancelou as aulas da rede municipal no período vespertino desta quinta-feira. A comunidade escolar amanheceu em luto.
A investigação agora ficará a cargo da Polícia Civil, que deverá aprofundar a apuração sobre as circunstâncias do crime, inclusive a possível premeditação indicada pelos elementos encontrados na residência.

