Um vídeo de cerca de dez minutos, gravado por câmeras de segurança de um estabelecimento comercial no bairro Santa Rita, em Brusque, no Vale do Itajaí, em Santa Catarina, passou a ocupar papel central em um inquérito da Polícia Civil que resultou no indiciamento do padre Vicente de Paula Neto por suposto crime de importunação sexual.
O material foi obtido e divulgado inicialmente pelo jornal O Município e posteriormente confirmado pelo Jornal Razão. As imagens integram o conjunto de provas analisadas pela PCSC no procedimento que apurou os fatos ocorridos no dia 1º de outubro deste ano.
Segundo a investigação, o vídeo mostra o religioso circulando pelo interior da loja por aproximadamente oito minutos. Em diferentes momentos, ele aparece pegando produtos das prateleiras enquanto, simultaneamente, realiza gestos repetidos na região íntima, por cima da roupa. Para os investigadores, o comportamento registrado pelas câmeras, aliado ao relato da vítima e a outros elementos documentais reunidos no inquérito, caracterizou indícios suficientes do crime de importunação sexual.
Durante o depoimento prestado à Polícia Civil, o padre negou qualquer intenção de cunho sexual. Ele afirmou que os movimentos observados nas imagens teriam ocorrido em razão de uma suposta coceira ou incômodo dermatológico e sustentou que não houve qualquer intenção de constranger o atendente. Apesar dessa versão, a autoridade policial entendeu que as provas técnicas e testemunhais reunidas ao longo da investigação não corroboraram a explicação apresentada, levando ao indiciamento do religioso. A pena prevista para o crime pode chegar a cinco anos de prisão.
O denunciante é um jovem de 19 anos que trabalhava como atendente no local no momento do ocorrido. Em depoimento, ele afirmou que ficou paralisado durante a situação e não conseguiu reagir. Segundo o relato, desde a entrada do padre na loja, o comportamento chamou sua atenção. O jovem afirmou ter visto o religioso, por diversas vezes, passar a mão e apertar por cima da calça, na região do pênis, enquanto mantinha contato visual constante.
O atendente contou que, no início, a conversa parecia comum, mas rapidamente passou a gerar desconforto. Enquanto manuseava um dos produtos da loja, o padre teria feito comentários que, somados aos gestos na região íntima e ao olhar fixo direcionado a ele, foram considerados estranhos. Em determinado momento, segundo o jovem, o religioso apertava o produto e dizia como era “gostoso apertar”. Logo depois, ainda conforme o depoimento, perguntou que horas o atendente sairia do trabalho.
Assustado, o jovem questionou o motivo da pergunta. De acordo com ele, o padre desconversou e afirmou que apenas queria saber o horário de fechamento da loja. Mesmo assim, o atendente relatou que o clima de tensão permaneceu. “Ele me encarava o tempo todo e rapidamente fiquei muito apavorado. Não sabia o que fazer. Fiquei paralisado, tremendo, com ânsia de vômito”, disse no depoimento.
Após a saída do padre do estabelecimento, o jovem relatou que demorou algumas horas para conseguir se acalmar e registrar o boletim de ocorrência. O documento foi posteriormente encaminhado à imprensa para conferência. Ele afirmou manter todos os detalhes da versão apresentada à polícia e decidiu tornar o caso público após observar uma intensa mobilização de apoio ao padre nas redes sociais.
Segundo o denunciante, falar publicamente é uma forma de tentar evitar que outras pessoas passem pela mesma situação. Ele afirmou acreditar que não foi o primeiro a vivenciar esse tipo de comportamento. Para o jovem, o fato de o indiciado ser uma figura religiosa amplia a gravidade da situação, especialmente por envolver alguém que mantém contato frequente com crianças e com a comunidade em geral.
Paralelamente ao avanço da investigação policial, o caso provocou forte repercussão nas redes sociais e dividiu opiniões. Dezenas de manifestações públicas passaram a defender o padre, exaltando sua trajetória religiosa, o trabalho social desenvolvido à frente da Comunidade Bethânia. Em muitos comentários, apoiadores afirmam acreditar na inocência do religioso e classificam o episódio como uma interpretação equivocada das imagens.
Por outro lado, também houve uma expressiva mobilização em defesa da vítima. Usuários destacaram que as imagens fazem parte de um inquérito policial, que houve indiciamento formal após análise técnica das provas e que a exposição pública das reações demonstra por que, muitas vezes, vítimas demoram ou evitam denunciar.
No curso da apuração, a Polícia Civil analisou as imagens das câmeras de segurança e identificou o veículo utilizado pelo padre, registrado em nome de uma entidade religiosa. A partir disso, ele foi localizado e intimado a prestar depoimento. No interrogatório, Vicente de Paula Neto afirmou que estava no local para comprar um presente e alguns produtos pessoais. Disse também ter se sentido observado pelo atendente, sugerindo que o funcionário poderia ter desconfiado de um possível furto.
Apesar da versão apresentada pela defesa, os investigadores concluíram que as imagens, os relatos e os demais elementos reunidos no inquérito são suficientes para caracterizar, em tese, o crime de importunação sexual. Com isso, o procedimento foi concluído e encaminhado ao Ministério Público de Santa Catarina, que agora analisa o caso e decide sobre o oferecimento ou não de denúncia.
O MP informou que não irá se manifestar neste momento. A Delegacia de Polícia da Comarca de Brusque, responsável pela investigação, também afirmou que não comentará o caso. A reportagem tentou contato com o padre para obter esclarecimentos adicionais, mas não obteve retorno até a publicação.
Em nota, a Comunidade Bethânia, da qual o padre é Moderador Geral, manifestou apoio ao religioso e reafirmou confiança em sua conduta. Já a Arquidiocese de Florianópolis, responsável pelas paróquias de Brusque, informou que tomou conhecimento do caso e iniciou uma apuração interna para reunir mais informações.
O caso segue em tramitação, sob análise do Ministério Público, e continua sendo acompanhado. Novos desdobramentos não estão descartados.

