ONG diz ser vítima de “ódio nas redes” após divulgar fake news que fez jovem tirar a própria vida

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A tragédia que abalou Camboriú (SC) nesta sexta-feira (27) ganhou um novo capítulo neste fim de semana. Após a confirmação da morte de Leonardo Garcia, morador do bairro Rio do Meio, a ONG Viva Bicho, que havia sido a primeira a publicar um vídeo afirmando que era um abandono do cachorro, se pronunciou oficialmente e desativou sua conta no Instagram.

Leonardo tirou a própria vida cinco dias após o vídeo viralizar. Ele foi acusado injustamente de abandonar um cachorro, que na verdade não era seu. O animal, conforme explicaram moradores da região, tinha o hábito de correr atrás do carro de Leonardo sempre que ele saía, voltando depois para a casa de seu verdadeiro tutor.

Em nota publicada nas redes sociais antes da exclusão da conta, a ONG Viva Bicho afirmou que recebeu uma denúncia anônima acompanhada de imagens, enviadas por uma vizinha que teria visto a cena e relatado que o cachorro era desconhecido na rua. A ONG alegou que, diante disso, compartilhou o vídeo nas redes com o objetivo de buscar identificação do caso e denunciar possível abandono.

No entanto, a situação poderia ter sido esclarecida no mesmo dia, pois várias pessoas comentaram na publicação e enviaram mensagens explicando que era um mal-entendido. A ONG afirma ter apagado a publicação e publicado nova postagem com o próprio Leonardo explicando os fatos.

Houve também quem acusasse a ONG de ter insistido em manter o vídeo no ar, mesmo com alertas feitos por pessoas próximas da vítima. “Eles postaram que confiavam na pessoa que enviou o vídeo e, por isso, não retirariam”, disse um internauta. Outro relatou: “Tenho print da página se recusando a apagar”.

Mesmo assim, o vídeo já havia sido replicado por diversas páginas e perfis. A placa do carro ficou exposta e, com isso, o nome e os dados pessoais de Leonardo foram compartilhados em grupos de WhatsApp e comentários de redes sociais, incluindo na própria página do Instagram da ONG. A partir daí, ele passou a ser alvo de uma onda de ataques.

Após a confirmação de sua morte, o debate se intensificou. Centenas de internautas usaram as redes sociais para criticar a atitude da ONG. Muitos alegam que a organização agiu com imprudência ao divulgar o vídeo sem checar a veracidade dos fatos. Outros apontam que, mesmo diante dos supostos esclarecimentos, faltou um pedido público de desculpas — o que poderia ter amenizado a pressão sobre Leonardo.

“O rapaz já estava passando por dificuldades, e o vídeo foi o gatilho final”, comentou uma seguidora indignada. “Uma vida foi ceifada por ódio disfarçado de justiça”, disse outra.

ONG diz estar sendo ameaçada

Na nota oficial divulgada antes de desativar o Instagram, a ONG disse estar profundamente abalada com a repercussão e afirmou que nunca teve a intenção de prejudicar ninguém. “Somos voluntários. Lutamos todos os dias contra o abandono, os maus-tratos e a indiferença. Jamais houve qualquer intenção de causar mal a alguém”, declarou.

A organização também relatou que vem sendo alvo de ameaças e julgamentos nas redes sociais. “Neste momento de luto, nos deparamos com algo ainda mais doloroso: estamos sendo ameaçados, atacados e julgados como culpados por algo que, sabemos, nunca foi nossa intenção provocar.”

Apesar do posicionamento, muitas pessoas consideraram a manifestação insuficiente. Uma moradora destacou a ausência de um pedido claro de perdão. “Não pediram desculpas à família. A nota é fria, genérica. Não reconheceram que erraram.”

Após a publicação, o perfil oficial da ONG no Instagram foi desativado, segundo relatos de seguidores. A página no Facebook continua ativa, mas com comentários limitados.

Investigação

A Polícia Civil deve apurar as circunstâncias da morte e a repercussão do caso nas redes sociais. A ONG disse que está à disposição da Justiça para apresentar todos os materiais recebidos no momento da denúncia.

O caso de Leonardo Garcia reacende o debate sobre responsabilidade na internet. A propagação de conteúdos não verificados e a cultura do linchamento virtual, segundo especialistas, têm consequências graves — muitas vezes irreversíveis.

Repercussão continua

Enquanto a cidade ainda tenta assimilar o ocorrido, os comentários seguem divididos. Parte do público defende a atuação das ONGs na proteção animal, mas pede mais responsabilidade e cuidado ao lidar com denúncias. Outros exigem retratação pública.

Até o fechamento desta reportagem, a ONG Viva Bicho não havia feito novo pronunciamento oficial nem restabelecido o perfil no Instagram.

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