Motoristas se recusam a dirigir ônibus sem freio e são demitidos por justa causa em Joinville

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Três motoristas da Transtusa, empresa responsável pelo transporte coletivo em Joinville, foram demitidos por justa causa após denunciarem problemas mecânicos graves em veículos da frota. Segundo relatos divulgados pelo NSC Total, afiliada da Globo em Santa Catarina, os trabalhadores se recusaram a dirigir ônibus que apresentavam falhas nos freios, transmissão defeituosa e peças soltas, colocando em risco a vida de passageiros e funcionários.

Os alertas começaram a ser feitos entre 23 de setembro e 1º de outubro de 2025. João Carlos, um dos motoristas desligados, contou que desde março observava falhas em seu ônibus. Em uma ocasião, reclamou sobre problemas no sistema de freios, mas recebeu ordens para seguir viagem mesmo assim. Pouco tempo depois, o veículo perdeu o controle e colidiu contra dois carros, enquanto estava lotado de passageiros.

— O ônibus estava muito pesado, precisei do freio em emergência e ele não respondeu. Fiz de tudo, mas acabei batendo. Foi um risco enorme para todos nós — relatou ao NSC Total.

Segundo João, a cobrança por produtividade aumentou nos últimos meses, sem que houvesse melhorias estruturais. Ele afirma que chegou a pedir condições seguras de trabalho, mas foi advertido pela direção.

Vídeo expõe precariedade

A situação ganhou repercussão após um vídeo gravado por José Luiz*, outro motorista da companhia, viralizar nas redes sociais. Nas imagens, o painel do ônibus aparece solto e o veículo não engata a quinta marcha. José contou que, ao receber o ônibus, colegas já haviam alertado sobre o “barulhão escandaloso” ao acionar os freios.

Mesmo assim, a chefia teria ordenado que ele seguisse viagem. Depois que o vídeo se espalhou na internet, José foi chamado por superiores e demitido por justa causa.

— Disseram que, em um primeiro momento, a gravação ajudou a identificar o defeito. Mas que a exposição pública prejudicou a imagem da empresa de 65 anos. Por isso, fui desligado — contou.

O terceiro caso envolveu Marcos Paulo*, que em 18 de setembro recusou-se a conduzir um ônibus com falhas no volante e nos freios. No mesmo dia, foi designado para dirigir o mesmo veículo de José Luiz, que não tinha quinta marcha. Marcos também se negou a assumir a linha e acabou suspenso. Dias depois, em 23 de setembro, foi demitido definitivamente.

O sindicato da categoria chegou a tentar reverter a decisão, mas não obteve sucesso.

O que dizem a empresa e a Prefeitura

A Transtusa, em nota enviada ao NSC Total, afirmou que realiza manutenções preventivas e corretivas em sua frota, que não coloca veículos em circulação com risco à segurança e que os desligamentos seguem “a legislação vigente”.

Já a Prefeitura de Joinville declarou que faz vistorias mensais em mais de 95% da frota, nos terminais urbanos da cidade. Segundo a gestão municipal, quando irregularidades são detectadas, os ônibus recebem notificação para correção, podendo ser autuados e até retirados de circulação em caso de reincidência.

A administração reforçou que a população pode denunciar falhas diretamente à Ouvidoria pelo aplicativo Joinville Fácil, pelo site oficial ou pelo telefone 156.

Repercussão

O episódio provocou revolta entre motoristas e usuários do transporte coletivo. Nas redes sociais, dezenas de comentários relatam veículos sucateados, goteiras, ar-condicionado inoperante e riscos frequentes de acidentes.

Um ex-motorista relatou que já dirigiu ônibus “sem freio” e que acidentes só não foram mais graves porque condutores desviaram para calçadas ou estacionamentos, evitando colisões fatais. Outros afirmaram que as empresas, em especial Transtusa e Gidion, atuam em “monopólio” com a conivência do prefeito Adriano Silva (NOVO), sem abertura para novas licitações que permitam concorrência e renovação da frota.

Atualmente, mais de 100 mil pessoas utilizam diariamente o transporte coletivo de Joinville. As denúncias expõem não apenas as condições de trabalho dos motoristas, mas também a vulnerabilidade dos usuários que dependem do serviço.

A polêmica sobre as demissões por justa causa coloca em debate a fiscalização da frota, a postura das empresas e o papel do poder público em garantir segurança e qualidade no transporte público da maior cidade de Santa Catarina.

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