Duas motoristas de aplicativo foram assassinadas em Santa Catarina em menos de 24 horas, em crimes que chocaram o estado nesta semana. Os casos, registrados no mesmo dia em cidades a centenas de quilômetros de distância, expõem a vulnerabilidade de mulheres que trabalham com transporte por aplicativo no estado.
Na manhã da última segunda-feira (24), o corpo de uma idosa de 74 anos foi encontrado jogado em uma ribanceira em Canelinha, no Vale do Rio Tijucas. Na tarde do mesmo dia, uma mulher de 39 anos foi sequestrada enquanto realizava corridas em Videira, no Meio-Oeste catarinense. As duas foram mortas.
Caso Silvana: sequestro, resgate e confissão
Silvana Nunes de Almeida de Souza, de 39 anos, trabalhava como motorista da empresa VidCar em Videira. Na tarde de segunda-feira, por volta das 16h, ela embarcou uma passageira na frente da Sorveteira Italiana. Foi a última corrida registrada no aplicativo.
Cerca de uma hora depois, Silvana ligou para o marido, Valdinei Antonio de Souza, que estava a trabalho em Joaçaba. Ela estava extremamente nervosa e chorando. Ao fundo da ligação, uma voz masculina dava instruções e exigia o pagamento de R$ 5 mil para libertá-la.
O marido conseguiu transferir R$ 2.109 via Pix diretamente para a conta da esposa. Após a transferência, Silvana parou de responder às mensagens e às ligações. Valdinei acionou a Polícia Militar e se deslocou imediatamente para Videira.
Carro encontrado abandonado com marcas de terra
Por volta das 21h45, Valdinei viu em um grupo de WhatsApp que o veículo usado por Silvana, um Chevrolet Onix, estava estacionado na Rua Santa Maria, Bairro Vila De Carli, em Videira. Ele foi ao local e confirmou que era o carro da esposa.
O veículo não tinha danos aparentes, mas estava empoeirado e com vestígios de vegetação grudados na parte de baixo, indicando que foi conduzido por estradas de terra ou área de mata. O carro havia sido cadastrado no sistema de monitoramento e apresentou apontamentos em Fraiburgo por volta das 18h. Imagens de câmeras de segurança captaram o momento em que um homem abandonou o veículo na via.
A Polícia Científica realizou levantamento fotográfico e solicitou a remoção do carro para perícia, a fim de coletar vestígios no interior do veículo.
Familiares receberam mensagens suspeitas
Enquanto Silvana ainda era procurada, colegas de trabalho e familiares passaram a receber mensagens de WhatsApp de números desconhecidos, dizendo ter informações sobre seu paradeiro e pedindo que não envolvessem a polícia. Todos foram alertados sobre a possível tentativa de golpe e orientados a não repassar dados pessoais nem realizar pagamentos.
Autor confessou e levou policiais ao corpo
Em trabalho ininterrupto desde a denúncia, a Polícia Militar e a Polícia Civil identificaram o suspeito como Lucas Érico Liverio, de 32 anos, natural de Santa Catarina, que possui passagens por violência doméstica, lesão corporal e ameaça.
O homem foi abordado às 19h23 do dia seguinte (25) e conduzido à Delegacia de Investigação Criminal de Videira, onde confessou ter matado Silvana. Ele levou os policiais até o local onde o corpo havia sido abandonado, às margens da rodovia SC-355, no trecho entre Fraiburgo e Lebon Régis.
Caso Alice: idosa encontrada em ribanceira em Canelinha
Horas antes do sequestro de Silvana, na manhã do mesmo dia 24, moradores da localidade do Gavião, no bairro do Moura, em Canelinha, encontraram o corpo de uma mulher jogado em uma ribanceira às margens de um riacho. A vítima foi identificada como Alice D., de 74 anos, moradora de Camboriú, que também trabalhava como motorista de aplicativo.
Conforme a PMSC, um morador estranhou a circulação de veículos suspeitos em uma estrada de terra isolada e, ao verificar o local, encontrou o corpo da idosa caída de cabeça para baixo no barranco. O rosto da vítima estava desfigurado, e a principal hipótese é de que tenha sido morta com golpes na cabeça.
Segundo familiares, Alice havia saído para buscar um cliente na região da Canhanduba antes de desaparecer. Imagens de câmeras de segurança ajudaram a identificar veículos suspeitos na região. Um suspeito foi identificado, mas fugiu para uma área de mata ao perceber a aproximação das equipes. O Jornal Razão apurou com exclusividade a identidade da vítima e os detalhes da investigação.
Dois crimes, o mesmo padrão
Os dois casos compartilham semelhanças que preocupam: ambas as vítimas eram mulheres que trabalhavam como motoristas de aplicativo, foram abordadas durante corridas, assassinadas e tiveram seus corpos descartados em locais ermos. Os crimes aconteceram no mesmo dia, em pontos opostos de Santa Catarina.
Até o momento, não há indícios de ligação entre os dois casos. No caso de Videira, o autor foi preso e confessou. No caso de Canelinha, o suspeito identificado segue foragido. A Polícia Civil investiga os dois crimes separadamente.

