Moisés Falk Silva completou 4 anos em 15 de agosto de 2025. Dois dias depois, no domingo, chegou desacordado ao hospital carregado por uma vizinha. O corpo miúdo já sem sinais vitais. O rosto coberto por hematomas, a bochecha com uma mordida, o abdômen inchado, as costas marcadas por pancadas. Tentaram reanimar por quase uma hora, mas ele não voltou. O óbito foi confirmado às 14h24. A causa: traumatismo abdominal seguido de choque hemorrágico. O menino morreu espancado.
Mas o que mais choca é o que veio antes. Porque Moisés gritou por socorro por meses — e ninguém escutou.
A primeira vez que o alerta soou foi no dia 22 de maio, quando Moisés deu entrada na UPA Sul da Ilha, em Florianópolis. Chegou com hematomas no rosto, orelhas, abdômen, membros inferiores e uma escoriação no lábio. O padrasto, Richard da Rosa Rodrigues, contou que o menino “caiu da cama e vomitou”. Mas o médico não acreditou. Registrou como “suspeita de agressão” e o encaminhou imediatamente ao Hospital Infantil Joana de Gusmão.
No hospital, os exames foram claros: os níveis de enzimas pancreáticas e musculares estavam absurdamente elevados. O CPK marcava 2.587 (normal seria até 200). A lipase estava em 1.275 (indicativo de lesão grave no pâncreas). O lactato chegava a 20,9 — sinal de sofrimento celular intenso, típico de traumas. O diagnóstico foi registrado oficialmente com CID T74.4: síndrome de maus-tratos.
Ainda assim, Moisés ficou internado 12 dias e depois voltou para casa. A mesma casa. O mesmo padrasto. A mesma mãe. A mesma rotina.
Em boletim de ocorrência registrado no dia 23 de maio, Larissa de Araújo Falk, mãe do menino, tentou culpar uma babá. Disse à polícia que “nunca desconfiou do companheiro”. Mas a própria Polícia Civil registrou que ela havia, sim, deixado Moisés aos cuidados do padrasto mesmo após trocar de cuidadora. A declaração de óbito foi contundente: Larissa tinha pleno conhecimento dos maus-tratos.

O Conselho Tutelar foi acionado. A Delegacia de Proteção à Criança instaurou inquérito. O hospital seguiu todos os protocolos. Mas no fim, ninguém afastou o agressor. A rede falhou.
No dia 16 de agosto, um sábado, Moisés voltou à UPA com sintomas gripais. O atendimento foi rápido, a médica detectou otite média e receitou antibiótico e paracetamol. Nenhum dos profissionais relembrou os registros anteriores. Ninguém puxou o histórico. Ninguém viu que aquele mesmo menino já havia sido diagnosticado com síndrome de maus-tratos três meses antes.
No dia seguinte, domingo, os gritos foram mais altos. Literalmente.
Por volta das 13h30, vizinhos ouviram barulho vindo da casa da família. Uma enfermeira, Vitória Matiola, correu até lá. Encontrou Moisés desacordado. Cianótico. Sem pulsação. Ela mesma levou o menino até o hospital com ajuda do padrasto.
A equipe médica do MultiHospital tentou reanimação por 51 minutos. Usaram adrenalina, amiodarona, bicarbonato de sódio. Não houve resposta. Às 14h24, o coração de Moisés parou de vez.
A cena que os profissionais encontraram não deixava dúvidas: marcas de pancadas nas costas, hematomas profundos no abdômen, rosto desfigurado, mordida na bochecha. A frieza do padrasto também chamou atenção. Segundo testemunhas, ele “fingiu um desmaio” ao ver a mãe chegar. A equipe de segurança achou estranho. O comportamento destoava do desespero de Larissa.
A Polícia Civil foi acionada. Fotografaram o corpo. Interrogaram os envolvidos. Recolheram o prontuário de maio, que já apontava maus-tratos. O Instituto Médico Legal emitiu o laudo: morte por choque hemorrágico causado por espancamento.

A justiça decidiu manter o padrasto preso. Contra ele pesam laudos, prontuários, testemunhas e um histórico sombrio. Já Larissa foi solta com medidas cautelares. A Justiça considerou, entre outros fatores, o fato de ela estar grávida. A defesa argumentou que ela não teve participação direta nas agressões, que está emocionalmente abalada e que precisa de acolhimento.
Mas os documentos dizem outra coisa.
Nos papéis da UPA, do hospital e da delegacia, está registrado que ela sabia. Que minimizou. Que preferiu acreditar em acidentes. Que “torcia para não ser agressão”. Que entregou o filho aos cuidados do mesmo homem que o deixava roxo de pancada.
O pai biológico contou à polícia que o menino vivia doente. Cheio de manchas. Com febres recorrentes. Ele alega que tentou alertar, mas teria sido supostamente ignorado.
A promotoria da Infância e Juventude de Florianópolis instaurou procedimento para apurar falhas na rede. Disse, em nota, que “há sinais de sobrecarga nos serviços” e que “precisa identificar onde a resposta falhou para evitar novas tragédias”.
O Conselho Tutelar afirmou que “não pode divulgar detalhes”, por sigilo. Reafirmou que atua conforme o ECA e que a função de investigar é da polícia. Mas o questionamento continua: se havia um laudo médico, um CID de maus-tratos, por que ninguém interveio?
A pergunta ecoa como um grito: quantas crianças precisarão morrer até que os sinais sejam levados a sério?
Moisés foi enterrado na segunda-feira. Quase ninguém no bairro sabia seu nome. Mas agora ele virou símbolo. De um sistema que falha. De uma infância que sangra em silêncio. De uma história que poderia — e deveria — ter sido diferente.
O Jornal Razão teve acesso exclusivo a boletins de ocorrência, exames laboratoriais, prontuários médicos, depoimentos, declarações de óbito e testemunhos de vizinhos.
Cada página lida desta tragédia revela o mesmo padrão: os sinais estavam lá. Claros. Em negrito. Em maiúsculas. E foram ignorados.
Moisés morreu espancado. Mas muito antes disso, morreu sufocado por uma rede que deveria protegê-lo.
E que falhou. Mais uma vez.

A dor de Moisés não começou no domingo em que morreu. Começou antes. Muito antes. E pode ser medida com exatidão nos números frios dos exames médicos e nas palavras técnicas dos profissionais que o atenderam.
O grito silencioso estava nos prontuários
No dia 22 de maio, quando Moisés foi levado à UPA Sul da Ilha, o diagnóstico foi claro: suspeita de agressão. O CID médico registrado foi T74.4 — “Síndrome de Maus-Tratos”. O menino estava coberto de hematomas. Segundo o padrasto, ele teria “caído da cama”. Mas os profissionais desconfiaram.
Transferido ao Hospital Infantil Joana de Gusmão (HIJG), Moisés foi submetido a uma série de exames. Os resultados revelaram o que o corpo dele gritava sem palavras:
- CPK: 2.587 (indicador de lesão muscular extensa)
- Lipase: 1.275 / Amilase: 519 (trauma abdominal grave, possível lesão no pâncreas)
- Lactato: 20,9 (sofrimento celular intenso, compatível com hipóxia)
- Plaquetas: 86 mil (nível muito abaixo do ideal, com risco de sangramento interno)
As imagens de tomografia e ultrassonografia não mostraram lesões no crânio, mas revelaram áreas de retração cortical nos rins, sinal de agressões anteriores ou infecções prévias não tratadas.
Mesmo diante desse cenário, Moisés teve alta hospitalar e retornou para casa no dia 30 de maio. Nenhuma medida concreta de afastamento do agressor foi tomada. Nenhum protocolo de acolhimento foi efetivamente acionado. E o menino voltou para o ciclo de agressões.
O retorno à UPA e a ausência de memória institucional
No dia 16 de agosto — um sábado — Moisés foi novamente levado à UPA. Desta vez, com sintomas gripais. Foi atendido por outro médico, que registrou apenas uma infecção de ouvido (otite média) e prescreveu amoxicilina e paracetamol. Nenhum histórico de maus-tratos foi consultado. Nenhuma referência à passagem anterior.
Em menos de 24 horas, Moisés estava morto.
O dia do fim: gritos, omissão e sangue
No domingo, 17 de agosto, vizinhos ouviram gritos vindos da casa. A enfermeira correu até o local. Encontrou Moisés desacordado, sem pulso, com sinais claros de parada cardiorrespiratória. Levou o menino ao MultiHospital com ajuda do padrasto, que, segundo testemunhas, demonstrava comportamento estranho e até “simulou desmaio” no local.
A pediatra que liderou a tentativa de reanimação, registrou em prontuário: cianose, midríase, ausência total de sinais vitais, hematomas profundos em abdome, dorso e face. Foram feitas manobras de RCP, uso de adrenalina e desfibrilação. Nada funcionou.
Às 14h24, Moisés foi declarado morto.
O laudo definitivo: espancamento
O Instituto Médico Legal de Santa Catarina emitiu a Declaração de Óbito nº 40492470-0. A causa: choque hemorrágico por traumatismo abdominal. A descrição manuscrita foi ainda mais direta: “sangramento abdominal secundário a trauma”.
O médico legista que assinou o documento não hesitou na conclusão: foi uma morte violenta, causada por agressões físicas.

A investigação: frieza e contradições
O Jornal Razão reuniu todos os documentos médicos, boletins de ocorrência e laudos oficiais. O que se formou foi um roteiro de omissão e descaso:
- 22 de maio: Moisés dá entrada na UPA com hematomas. CID T74.4. Suspeita de maus-tratos.
- 22 a 30 de maio: Internado no HIJG. Exames confirmam traumas graves. Alta hospitalar mesmo assim.
- 23 de maio: Mãe registra BO culpando uma babá. Mas deixa o filho com o padrasto.
- 16 de agosto: Moisés vai à UPA com sintomas gripais. Nenhuma referência ao histórico anterior.
- 17 de agosto: Morre espancado. Laudo confirma morte por trauma físico.

