Mãe sabia que filho tinha medo do padrasto e ignorou ‘pedidos de socorro’ antes da criança morrer espancada

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A Polícia Civil de Santa Catarina concluiu um relatório preliminar de investigação sobre a morte de Moisés Falk Silva, 4 anos, ocorrida em 17 de agosto de 2025, em Florianópolis. O documento de 32 páginas, obtido com exclusividade pelo Jornal Razão, expõe em detalhes os fatos que antecederam o óbito da criança, os elementos colhidos no inquérito e o papel de cada envolvido. Segundo os investigadores, há “fortes indícios de violência física reiterada” e “omissão dolosa” por parte da mãe e do padrasto.

Chegada ao hospital

De acordo com o relatório, Moisés foi levado por vizinhos ao MultiHospital, na região Sul da Ilha, por volta das 13h40. Estava inconsciente, em parada cardiorrespiratória, e foi carregado no colo por uma enfermeira, moradora da vizinhança. O padrasto, Richard da Rosa Rodrigues, acompanhava o grupo.

Durante o atendimento, a equipe médica observou lesões na face, abdômen e costas da criança, além de marcas compatíveis com mordida. Apesar das tentativas de reanimação por quase uma hora, o óbito foi confirmado. O prontuário médico apontava ainda que Moisés já havia sido atendido anteriormente com sinais de maus-tratos.

Histórico de agressões

O pai biológico, Jefferson Alves da Silva, afirmou à polícia que o filho vinha apresentando febres recorrentes e manchas roxas nos meses anteriores. Já em 22 de maio de 2025, Moisés foi atendido na UPA Sul da Ilha com escoriações nos lábios, equimoses na face, orelhas, abdômen e marcas consideradas “de defesa”.

Na ocasião, foi transferido ao Hospital Infantil Joana de Gusmão, onde exames laboratoriais apontaram níveis elevados de CPK e lactato — indicativos de trauma físico grave.

Mesmo com o diagnóstico clínico de “síndrome de maus-tratos” (CID T74.4), Moisés recebeu alta dias depois e voltou para a mesma casa, sob os cuidados de Larissa e Richard. A mãe chegou a registrar boletim de ocorrência após a internação, mas mencionou apenas uma “suspeita de agressão por parte da babá”.

Provas digitais

Os celulares do casal foram apreendidos no dia do crime. No iPhone de Richard, peritos encontraram uma pesquisa feita no ChatGPT horas antes da morte da criança. A pergunta registrada foi: “O que acontece se ficar enforcando muito uma criança?” A polícia considerou esse dado como indício de premeditação.

No WhatsApp, foram localizadas conversas entre o casal. Em uma delas, Richard admite ter mordido Moisés com força e diz que foi “sem querer”. Larissa responde: “Por isso que o menino tem medo de tu. Fica fazendo isso, depois diz que é brincadeira. Tu não gira bem da cabeça, não.”

Em outro diálogo, Larissa menciona: “Eu não deixo o nenê contigo… acho que tu não é normal”. Em seguida, relata que o filho estava com medo, e Richard responde: “Acho que ele sente falta do pai dele, e sabe que eu não sou.”

Registros de imagens e mensagens

As imagens obtidas do hospital mostram Richard caminhando de forma calma e indiferente, enquanto a enfermeira e os vizinhos corriam com Moisés no colo. A mãe chega minutos depois e conversa normalmente com o companheiro, sem sinais visíveis de aflição.

Além disso, o celular de Richard continha registros apagados de fotos com lesões na criança. Em uma conversa com a sogra, ele menciona hematomas nas costas do menino e manifesta preocupação com uma possível denúncia médica.

Laudo de óbito

O laudo necroscópico do Instituto Médico Legal aponta que a causa da morte foi “choque hipovolêmico decorrente de múltiplos traumas por ação contundente”. Havia marca de mordida na bochecha, hematomas no abdômen e uma lesão específica na região escrotal, indicativa de violência grave.

Conclusão da polícia

O relatório conclui que tanto Richard quanto Larissa tinham conhecimento da situação de risco à qual Moisés estava submetido. Para os investigadores, houve omissão dolosa da mãe, que deixou de agir mesmo diante de sinais claros de maus-tratos. Já Richard é apontado como autor das agressões diretas.

Depoimentos

O Jornal Razão também obteve acesso ao conteúdo integral da audiência de custódia do casal, realizada no Fórum da Capital. Os depoimentos de Larissa e Richard foram prestados separadamente e revelam uma tentativa de distanciamento da responsabilidade pela morte da criança. Eles confirmaram que estavam juntos há apenas sete a oito meses e dividiam a casa com a irmã de Larissa, no bairro Tapera, Sul da Ilha.

“Ele estava desmaiando no meu colo”

Já o depoimento de Richard trouxe outra versão sobre os momentos finais de Moisés. Ele declarou que no dia 17, por volta das 15h30, percebeu que a criança estava desmaiando em seu colo e correu para pedir ajuda a vizinhos. Segundo ele, uma enfermeira vizinha prestou os primeiros socorros e ajudou a levá-lo ao hospital.

“Ele começou a ficar desmaiando. Chamaram uma moça, que acho que era enfermeira, e fomos direto pro hospital”, disse Richard. Ao ser questionado se Moisés apresentava sinais de agressão, respondeu: “Não lembro”. Ele também afirmou que não sabe se o menino chegou com vida à emergência. “Não me deixaram entrar, ficaram fazendo os procedimentos nele.”

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