O cão comunitário Orelha foi enterrado diretamente na terra, sem saco, caixa ou qualquer tipo de proteção, nos fundos de uma casa em Florianópolis. O detalhe consta no laudo pericial nº 2026.02.01212.26.007-94, elaborado pela Polícia Científica de Santa Catarina após exumação realizada em 11 de fevereiro.
O documento foi assinado pelos peritos criminais Igor de Salles Perecin, relator, e Paulo Eduardo Miamoto Dias, revisor. A perícia foi solicitada pela Delegacia de Atendimento ao Adolescente em Conflito com a Lei da Capital, dentro do procedimento que apura as circunstâncias da morte do animal, registrada em 4 de janeiro, na região da Praia Brava.
Segundo o laudo, o animal foi enterrado “diretamente no solo, sem embalagens ao redor do corpo”. O local ficava ao lado de um muro de pedras, próximo a uma pequena árvore, nos fundos de uma residência em Ponta das Canas. A área foi indicada pela pessoa que realizou o sepultamento.
Durante a exumação, os peritos registraram que o cão estava “em decúbito lateral direito, com a face voltada para cima”. Parte dos ossos já se encontrava desprendida. Para preservar vestígios, o corpo foi retirado “em bloco, com margem de segurança trazendo solo junto”, e encaminhado para análise laboratorial.
Ao ser examinado, o animal estava em “avançado estado de putrefação, em esqueletização, sem tecidos moles ainda identificáveis (exceto parte da pele)”. A própria perícia reconhece que essa condição limitou o exame, que ficou restrito à análise macroscópica dos ossos.
Todos os ossos foram avaliados. A conclusão técnica afirma que “não se verificaram fraturas” em crânio, mandíbula, coluna, membros ou pelve. O laudo também registra que “não foi constatado qualquer vestígio” que sustente a hipótese de prego cravado no crânio, versão que havia circulado nas redes sociais.
Apesar disso, os peritos fazem um alerta no item de discussão: “a ausência de fraturas não implica ausência de trauma cranioencefálico”. O documento explica que, conforme a literatura especializada, muitos traumas cranianos não deixam fraturas, mas ainda assim podem ser fatais. O texto afirma ser “plenamente plausível” que o animal tenha sofrido trauma contundente em um dia e evoluído com agravamento clínico até o óbito no dia seguinte.
Também foram identificadas alterações compatíveis com doenças crônicas. O laudo descreve “porosidade óssea compatível com osteomielite” na região maxilar esquerda e alterações degenerativas típicas de animais idosos, como espondilose deformante e doença articular degenerativa. Segundo os peritos, são enfermidades antigas, “que nada se relacionam com eventual trauma recente”.
Na conclusão, o documento é categórico: “a análise dos remanescentes mortais não permitiu afirmar qual a causa da morte”. A avaliação de tecidos moles ficou “prejudicada devido ao fenômeno da esqueletização”.
Os remanescentes permanecem armazenados na Polícia Científica e seguem à disposição das autoridades para eventuais desdobramentos da investigação.

