Em outubro de 2024, o corretor de imóveis Éder Rezini foi morto a tiros em frente à casa da própria mãe, em Tijucas, após um episódio confuso envolvendo trânsito, discussão e uma alegação de legítima defesa. O autor dos disparos é o empresário Thiago Vargas Pettirini, conhecido como “Gaúcho”, que agora enfrenta julgamento por homicídio qualificado.
De um lado, o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) sustenta a tese de homicídio triplamente qualificado — com indícios de perseguição e intenção de matar. De outro, a defesa de Thiago apresenta uma linha argumentativa, centrada na legítima defesa e apoiada em supostas contradições da acusação, depoimentos divergentes e laudos periciais.
O julgamento mobiliza atenção local pela complexidade dos elementos envolvidos — entre técnica, narrativa e emoção.
A versão do acusado: “Ele veio com um facão. Eu só queria me proteger”
Segundo Thiago Pettirini, o confronto começou à noite, enquanto ele dirigia com sua esposa e uma sobrinha. Ele relata que, ao trafegar por uma região próxima a uma igreja evangélica, avistou o carro de Éder “bem devagar”. Ao se aproximar, Éder teria acelerado bruscamente.
Mais adiante, na comunidade de Oliveira, no interior de Tijucas, Thiago alega ter voltado a encontrar o mesmo veículo. Tentou ultrapassá-lo, mas o carro acelerou novamente, impedindo a manobra. Em seguida, ele sentiu um impacto na traseira do carro e supôs ter sido atingido.
Thiago afirma que parou para verificar o dano, viu o carro de Éder entrando em uma rua lateral e decidiu retornar para tirar satisfação. Ao descer, confrontou Éder sobre a suposta batida. O réu afirma que a vítima estava alterada, falando coisas desconexas, até que teria sacado um facão e partido para cima dele.
“Recuo, vou até a porta do carro, pego minha arma, que estava debaixo do banco, engatilho e digo: ‘Cara, para. Para!’”, relatou Thiago. Segundo ele, mesmo com dois disparos nos pés, Éder continuou avançando, golpeando-o superficialmente com o facão. Thiago caiu, levantou-se rapidamente e, com Éder ainda por perto, fez um novo disparo.
“Aí ele virou e foi para os fundos da casa. Entramos no carro e fomos embora.”
A acusação: perseguição, execução e fuga
Para o Ministério Público, a versão do réu não se sustenta diante de vários elementos técnicos e investigativos:
- O rastreador do carro alugado mostra que o veículo nunca parou após a suposta batida, o que contraria a versão de que Thiago teria parado para verificar danos.
- O disparo fatal, segundo o Laudo 26 da perícia, teve trajetória de cima para baixo, da esquerda para a direita, de anterior para posterior — sugerindo uma posição de vantagem do atirador, o que, para o MPSC, não é compatível com legítima defesa.
- Thiago mentiu para a empresa Localiza, informando que havia batido o carro em um muro, tentando ocultar o envolvimento no crime.
- Não houve qualquer tentativa de socorro à vítima.
- Há contradições nos relatos de familiares e testemunhas.
O MPSC também questiona a ausência de resgate do facão e a falta de provas materiais sobre os primeiros disparos alegados pelo réu.
A defesa: “Sem certeza, não se pode condenar”
A defesa de Thiago apresentou uma argumentação extensa, baseada tanto em aspectos técnicos quanto emocionais, e fez críticas à investigação.
A trajetória do disparo
A defesa reconhece o laudo que aponta disparo “de cima para baixo”, mas afirma que essa direção foi de apenas alguns centímetros:
“A perícia não indica execução. Não diz que um estava de pé e o outro no chão. Diz apenas que a trajetória foi levemente descendente.”
A defesa sugere que, no momento do disparo, Thiago poderia estar se levantando do chão, enquanto Éder projetava o corpo para frente — o que justificaria essa trajetória.
Os projéteis ausentes
Thiago alega ter feito dois disparos nos pés de Éder, antes do disparo fatal. No entanto, os projéteis não foram encontrados na cena, e a busca, segundo a defesa, só foi feita cinco meses depois.
“Isso compromete qualquer possibilidade de confirmar ou refutar a versão do réu.”
O facão desaparecido
A suposta arma branca que teria sido usada por Éder nunca foi recolhida. A defesa argumenta que não houve diligência suficiente para analisar objetos que poderiam ter digitais ou sangue da vítima.
O laudo toxicológico: álcool e medicamentos
O laudo toxicológico de Éder Rezini revelou níveis significativos de álcool e medicamentos:
- Álcool: 14,58 dg/L de sangue — mais que o dobro do limite legal para configurar crime de trânsito.
- Sete medicamentos, incluindo:
- Clonazepam
- Zolpidem
- Dipirona
- Fármacos para depressão e ansiedade
A defesa sustenta que a combinação pode ter afetado o comportamento da vítima, tornando-o mais impulsivo ou agressivo.
“Não estamos dizendo que ele era uma má pessoa. Mas ele estava sob efeito de substâncias que podem ter alterado seu discernimento.”
Contradições nos depoimentos de familiares
A defesa também apontou inconsistências internas nos relatos da família de Éder:
- A mãe da vítima afirma que Thiago chegou atirando.
- A filha e uma sobrinha dizem que ouviram disparos, mas não viram a cena.
- Uma das sobrinhas relatou que, antes da discussão, Thiago estava mexendo no celular, o que contraria a ideia de um ambiente tenso e agressivo.
“Se nem as testemunhas se alinham sobre o que aconteceu, como condenar alguém com base em versões contraditórias?”, questionou o advogado.
O princípio da dúvida
No encerramento da sustentação oral, a defesa invocou o princípio constitucional do in dubio pro reo — na dúvida, decide-se a favor do réu.
“Não consigo acreditar que ele tenha parado ali, descido do carro e atirado por nada. Alguma coisa aconteceu. E o que as provas mostram é dúvida, não certeza”, alega.
“Se vocês não têm certeza de que não foi legítima defesa, vocês não podem condenar. Isso é o que manda a Constituição.”
“Thiago não deveria estar armado. Mas se não estivesse, talvez fosse ele o morto.”
O júri popular se aproxima de sua etapa final, e o veredito pode ser emitido a qualquer momento.

