EXCLUSIVO: “Pisaram na minha cabeça”, desabafa influenciador flagrado com milhões em drogas em BC

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Julian Felipe Feitosa, influenciador digital de Balneário Camboriú (SC), voltou para trás das grades após uma reviravolta judicial em um dos maiores flagrantes de tráfico de drogas do estado. O caso, que envolveu a apreensão de quase 200 kg de entorpecentes e gerou forte repercussão nas redes sociais, teve um novo desdobramento nesta quinta-feira (21), quando o juiz titular da Vara Regional de Garantias da Comarca de Balneário Camboriú revogou de ofício a liberdade provisória concedida por outro magistrado durante a audiência de custódia. A decisão foi tomada antes mesmo da análise de um recurso apresentado pelo Ministério Público ao Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC).

A prisão, a liberdade e a reviravolta

Julian havia sido preso em flagrante no dia 18 de agosto, após uma operação da Agência de Inteligência da Polícia Militar de Santa Catarina, que descobriu um apartamento utilizado como depósito de drogas no bairro Vila Real. No local, foram apreendidos 176 kg de cocaína e 12,7 kg de crack, acondicionados em dezenas de sacos de ráfia prontos para abastecer o mercado ilícito no litoral catarinense.

Apesar da gravidade do flagrante, o influenciador foi solto no dia seguinte, durante a audiência de custódia, por decisão do juiz Guilherme Faggion Sponholz, que entendeu que Julian era réu primário, não tinha antecedentes e poderia responder em liberdade, mediante medidas cautelares.

A decisão causou indignação pública e institucional, especialmente após a revelação exclusiva feita pelo Jornal Razão. Imediatamente, a 8ª Promotoria de Justiça de Balneário Camboriú ingressou com recurso no TJSC, sustentando que a quantidade de drogas apreendidas era incompatível com atuação individual, sugerindo tráfico em larga escala e risco concreto de fuga.

Antes mesmo que o recurso do Ministério Público fosse analisado, o próprio juiz Lenoar Bendini Madalena, titular da Vara de Garantias, reavaliou o caso e, com base no artigo 316 do Código de Processo Penal, decretou de ofício a prisão preventiva de Julian Felipe Feitosa. Em decisão extensa e detalhada, o magistrado apontou que os fundamentos utilizados para conceder a liberdade provisória não se sustentavam frente às provas reunidas até o momento.

O tráfico disfarçado sob a lente da ostentação

Julian Felipe Feitosa e sua esposa, Isabella Poli, não eram figuras desconhecidas nas redes sociais. Ele se apresentava como influenciador fitness, modelo e ex-salva-vidas. Já Isabella, como empresária de sucesso em vendas online. Em suas postagens, exibia prêmios e placas comemorativas. Em uma delas, segurava um troféu com a inscrição “R$ 5 milhões em vendas com lojas virtuais”, celebrando o que seria sua trajetória empreendedora.

A contradição veio à tona com o depoimento de Isabella, que afirmou às autoridades que Julian aceitou guardar a droga em troca de R$ 2.000 para pagar o aluguel. Disse que tentou convencê-lo a não se envolver, mas que ele insistiu. Ela ainda relatou que ele já havia feito isso anteriormente.

Dentro do apartamento, além dos entorpecentes, a polícia encontrou duas balanças de precisão, elemento típico de quem atua no fracionamento e distribuição da droga. Em depoimento, o próprio Julian confessou que receberia a quantia pela guarda do material e relatou detalhes da entrega do veículo carregado com a droga, que foi deixado na rua por pessoas com as quais ele teria se comunicado por aplicativo.

O entendimento do juiz: crime em larga escala

Para o juiz titular, a atuação de Julian não se tratava de um episódio isolado. Ele apontou fortes indícios de que o investigado fazia parte de um esquema estruturado, com divisão de tarefas, logística e participação de outros envolvidos ainda não identificados.

Além disso, destacou que a quantidade apreendida é a maior já registrada desde a criação da Vara Regional de Garantias da Comarca de Balneário Camboriú, em 2024. Segundo ele, com base em valores praticados no mercado atacadista, o carregamento apreendido pode ultrapassar R$ 10 milhões, e, em cenários de venda fracionada, R$ 25 milhões.

A decisão também descartou qualquer possibilidade de aplicação do chamado tráfico privilegiado, dispositivo legal que permite redução de pena em casos de primeira infração, sem vínculos com facção criminosa. Para o magistrado, a habitualidade, a expressiva quantidade de droga e a forma de atuação demonstram dedicação à atividade criminosa.

“Não é qualquer traficante que possui tamanha quantidade de entorpecentes. Todos os pormenores levam a crer que o crime aqui descoberto é daqueles de grandes proporções”, escreveu o juiz Lenoar Bendini Madalena.

Prisão preventiva por segurança da sociedade

A decisão enfatiza que a prisão preventiva se faz necessária para garantir a ordem pública, evitar a reiteração criminosa e sinalizar que o Judiciário catarinense não tolerará a atuação de traficantes em grande escala, ainda que travestidos de influenciadores ou empreendedores.

“A soltura imediata deixaria latente a falsa noção de impunidade e serviria de estímulo para idêntica conduta, fazendo avançar a intranquilidade que os crimes dessa natureza vêm gerando na sociedade”, diz um dos trechos da decisão.

O juiz ainda rejeitou a possibilidade de prisão domiciliar ou substituição por medidas cautelares mais brandas, afirmando que os riscos à coletividade são concretos e elevados.

Prisão cumprida pela PMSC

Com o novo mandado de prisão expedido, equipes da Polícia Militar localizaram Julian novamente em Balneário Camboriú e efetuaram a prisão preventiva nesta quinta-feira (21). Ele foi encaminhado ao sistema prisional, onde permanecerá à disposição da Justiça. A companheira, Isabella Poli, segue em liberdade, já que Julian assumiu integralmente a posse da droga.

A Polícia Militar de Santa Catarina destacou que a operação representa um duro golpe contra o tráfico de drogas no litoral catarinense. Segundo a corporação, o impacto da apreensão ultrapassa o valor econômico — representa vidas salvas, rotas criminosas desmanteladas e um recado direto às facções que atuam na região.

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