Mais de cem estudantes foram impedidos de votar no primeiro turno da consulta informal para a Reitoria da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), realizado na quarta-feira, 1º de abril. O processo, organizado por entidades historicamente ligadas à esquerda, foi marcado por denúncias graves: listas de votantes com erros, voto secreto não garantido e uma apuração que se arrastou por mais de cinco horas de portas fechadas. Nas redes sociais, estudantes acusam as entidades responsáveis de terem transformado a consulta em um “curral eleitoral” e falam em “democracia relativa”, na qual o direito ao voto foi seletivo.
A Comissão Eleitoral (Comeleufsc) é composta por quatro entidades: Apufsc-Sindical (docentes), Sintufsc (técnicos-administrativos), DCE (estudantes) e APG (pós-graduandos). As três últimas, alinhadas à esquerda, formaram maioria nas decisões e impuseram o modelo de votação presencial com urna eletrônica, rejeitando a proposta da Apufsc de usar o sistema online e-Democracia, que daria mais tempo para conferência das listas.
DCE sabia dos erros e não corrigiu
O Diretório Central dos Estudantes (DCE), que integra a comissão organizadora, classificou os problemas como “erro gravíssimo” e disse ter proposto o “voto em trânsito” para os afetados, mas que o regimento não permite. No entanto, em vídeo publicado nas próprias redes sociais, a entidade reconheceu que já sabia que a lista de votantes tinha erros antes da votação. A admissão gerou revolta entre estudantes.
“É lamentável que diversos alunos do campus Blumenau não possam votar, algo que deveria ser um direito garantido”, escreveu um estudante nas redes. Outro relatou que, de todas as pessoas que tentaram votar em Blumenau, “só 32 conseguiram, e mais de 80 não conseguiram”. A hashtag #fraudenaseleçõesufsc começou a circular entre os alunos.
Conforme o candidato a reitor João Luiz Martins, da chapa 63 (Conhecer é Transformar), só em Blumenau foram mais de cem estudantes impedidos de exercer o direito ao voto porque seus nomes simplesmente não constavam nas listas. Docentes também relataram que alunos de pós-graduação com matrícula vigente e ingresso em 2026 foram barrados nas seções.
Mensagens pediam para “cravar 52” e “livrar a UFSC da extrema direita”
O contexto político da disputa ficou escancarado em mensagens que circularam em grupos de WhatsApp ligados à comunidade acadêmica. Uma delas convocava abertamente: “Gente, a tarefa política agora é cravar 52 e livrar a UFSC da extrema direita. Todes juntes na defesa da democracia”. A chapa 52 (UFSC Unida) é a do atual reitor, Irineu Manoel de Souza, candidato à reeleição.
O próprio DCE, que deveria ser imparcial como membro da comissão eleitoral, publicou vídeo nas redes sociais com ataques direcionados à chapa 41 (Mudar para Transformar), gerando uma enxurrada de críticas. “Uma entidade que deveria nos representar escolhe o caminho da desinformação em pleno dia de eleição. Isso é um desrespeito não só ao Amir e sua equipe, mas à inteligência de todos os estudantes”, escreveu uma aluna entre os comentários mais curtidos.
Voto secreto violado no Centro Socioeconômico
Além dos problemas com as listas, a Apufsc-Sindical recebeu denúncia de que a segurança e a inviolabilidade do voto não foram garantidas em ao menos uma seção de votação, no Centro Socioeconômico (CSE), em Florianópolis. Imagens registradas no local mostram que o sigilo do voto ficou comprometido.
Resultado parcial: chapa com apoio dos professores lidera
A apuração só começou após mais de cinco horas de reunião a portas fechadas entre as chapas e a Comeleufsc. Perto das 3h da madrugada desta quinta-feira, foram divulgados os resultados parciais, contabilizando apenas os votos de Florianópolis e Curitibanos. As urnas de Araranguá, Blumenau e Joinville, onde 5.546 pessoas estavam aptas a votar, seguem sem apuração.
De um universo de 44 mil eleitores, apenas 12.730 votaram. No sistema ponderado, que distribui o peso igualmente entre docentes, TAEs e estudantes:
A chapa 41 (Mudar para Transformar), de Amir Antônio Martins de Oliveira Júnior, lidera com 37,59% dos votos válidos. Amir teve apoio maciço dos docentes, com 732 dos 1.572 votos de professores, quase o dobro do segundo colocado na categoria.
A chapa 52 (UFSC Unida), do atual reitor Irineu Manoel de Souza, ficou em segundo com 32,55%, sustentada principalmente pelos votos dos técnicos-administrativos (1.037 votos de TAEs).
A chapa 63 (Conhecer é Transformar), de João Luiz Martins, ficou em terceiro com 29,87%, liderando entre os estudantes com 4.166 votos.
Apufsc já havia alertado, mas foi ignorada
O sindicato dos docentes vinha alertando sobre a fragilidade do processo desde as reuniões preparatórias. A Apufsc defendeu a votação online, que daria mais prazo para conferência das listas e permitiria a participação de quem estivesse fora dos campi. Foi voto vencido. Com a opção pela urna eletrônica, a listagem definitiva precisou ser entregue ao TRE 30 dias antes da consulta. A entidade ainda alertou que, como as listas foram liberadas no período de férias, os alunos não teriam como verificar seus nomes a tempo.
“Foi uma consulta extremamente mal conduzida pelas três entidades, que de modo irresponsável jogam a instituição na lama”, disse o presidente da Apufsc, Bebeto Marques. “Nós sempre advogamos por uma consulta com mais tempo e por votação remota. Mais tempo significava maior cuidado, maior controle e cuidado com as listas.”
O que vem agora
Conforme a Comeleufsc, até as 18h desta quinta-feira a comissão publicará nota oficial e fará a apuração das urnas de Araranguá, Blumenau e Joinville, além de anunciar decisão sobre a denúncia referente à votação em Blumenau. Caso nenhuma chapa alcance maioria absoluta, o segundo turno está previsto para 14 de abril. A Comeleufsc não se manifestou oficialmente sobre os problemas registrados até a publicação desta reportagem.

