Pouco mais de duas semanas após sobreviver a um ataque brutal em um mercado de Rio Negrinho, no Norte de Santa Catarina, Kessya Souza, de 18 anos, compartilhou um relato comovente sobre o que viveu durante a tentativa de feminicídio. Na publicação feita nas redes sociais, ela descreveu os momentos de medo, dor e fé que marcaram sua recuperação após perder a mão direita no ataque.

“No pronto-socorro, só conseguia pensar: Meu Deus, como estão a Jhenyfer e o Felipe?”, escreveu.
Mesmo ferida, ela se dizia preocupada com os colegas que tentaram defendê-la. “Senti culpa por eles também terem se ferido.”
Durante a cirurgia, Kessya relatou ter permanecido consciente e sentido cada ponto da anestesia. “Quando o doutor viu o ferimento, ele me disse: ‘Não há solução. Sua mão está presa por uma lasquinha, vai precisar ser amputada.’ Naquela hora, implorei a Deus: ‘Senhor, por favor, me deixa com a minha mão!’ Mas no final entendi que eu nunca mais a teria.”
Mesmo em meio ao desespero, a jovem tentava aliviar o sofrimento dos pais:
“Vi meus pais no corredor e fiz uma piada: ‘Pai, vou precisar de uma mão… e de uma peruca também’.”
Ela conta que o medo de vê-los frágeis a marcou profundamente. “Desde então, tento ser forte todos os dias, para não deixá-los desmoronar. Mesmo que doa por dentro, evito demonstrar fraqueza.”

Na UTI, Kessya enfrentou um dos períodos mais difíceis. “Perdi mais de seis acessos. Tentaram duas vezes colocar o soro no pescoço, a pior sensação que já senti. Mesmo assim, todos foram atenciosos e cuidadosos comigo. E eu só pensava: ‘Deus, me mostra o caminho. Deus, me ajuda’.”
Ao receber alta, ela chorou. “Chorei de medo de ir pra casa, medo de como reagiria. Até que uma enfermeira me disse: ‘Você vai pra casa. A sua casa’. Essas palavras acalmaram o meu coração.”
Em casa, ainda abalada, ela entendeu a dimensão do milagre que viveu.
“Levantei a cabeça e disse: ‘Deus, muito obrigada pela minha vida. O Senhor é maravilhoso. O Senhor me ama. Eu sou amada por Deus’.”
Kessya encerrou a publicação agradecendo aos amigos que a salvaram.
“Jhenyfer e Felipe, meus dois heróis que enfrentaram a morte para me defender.”
Relembre o caso
O crime aconteceu na tarde de sexta-feira, 24 de outubro, em um mercado no bairro São Rafael, em Rio Negrinho, no Norte de Santa Catarina.
Câmeras de segurança registraram o momento em que o ex-namorado de Kessya, de 23 anos, chegou ao local em uma motoneta azul e invadiu o estabelecimento armado com um facão.
Ele atacou a jovem e feriu dois colegas de trabalho que tentaram defendê-la. Mesmo gravemente ferida, Kessya conseguiu identificar o agressor à polícia antes de ser levada ao hospital.
O homem foi preso pouco depois e confessou o crime, alegando não aceitar o fim do relacionamento. Ele responde por tentativa de feminicídio e duas tentativas de homicídio.

Alta hospitalar e recuperação
Após o ataque, Kessya ficou internada na UTI da Fundação Hospitalar de Rio Negrinho, onde passou por cirurgias de urgência e reparadoras.
Ela teve a mão direita amputada e sofreu ferimentos profundos pelo corpo.
A jovem recebeu alta no dia 27 de outubro e segue em recuperação em casa, ao lado da família.
Segundo familiares, o quadro de saúde é estável. Já os colegas feridos — Felipe Eduardo de Lima Kwitschal, de 19 anos, e Jhenyfer Schlucubiier, de 33 — também receberam alta e passam bem.
Apesar das sequelas físicas, Kessya diz não guardar rancor.
“Não há mais sentimento algum, nem mesmo ódio. O que aconteceu comigo, eu não desejo nem a ele.”

