O novo plano de carreira apresentado pelo comando da Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC) reacendeu uma crise de confiança e indignação entre os praças. Divulgada como uma proposta de valorização, a medida foi recebida pela base como mais um símbolo de desigualdade dentro da instituição, um projeto que, segundo a tropa, favorece poucos e aprofunda o abismo entre oficiais e policiais da ponta.
O comando afirma que o texto cria “fluidez” na progressão profissional e assegura que todos os praças poderão chegar à graduação de subtenente em até 25 anos de serviço. Mas, para quem vive a rotina nas ruas, o plano é visto como um retrocesso que retarda as promoções, mantém o concurso interno e prolonga o tempo necessário para alcançar salários mais dignos.
Carreira travada e bolso vazio
Entre os praças, o sentimento é de frustração. Policiais destacam que o problema vai além da hierarquia: quanto mais lento o avanço na carreira, mais demorada é a melhora salarial. Muitos afirmam que passam duas ou três décadas com remunerações que mal acompanham o risco e a responsabilidade da função.
Enquanto isso, a diferença em relação aos oficiais é gritante. Em cerca de dez anos, um tenente já pode alcançar o posto de capitão, com vencimentos superiores a R$ 20 mil. Do outro lado, quem patrulha as ruas e enfrenta o crime diariamente continua recebendo o “salário de base”, sem perspectiva de crescimento real.
O mesmo comando da Polícia Militar de Santa Catarina que se recusa a valorizar a tropa nas ruas agora tenta calar quem ajuda o Jornal Razão a mostrar o lado certo da farda. Nos batalhões, principalmente na Grande Florianópolis, espalhou-se uma ordem interna que ameaça com Processo Administrativo Disciplinar (PAD) qualquer policial que envie informações ou ocorrências ao Jornal Razão. A medida, vista como uma forma de censura, gerou revolta e indignação entre os praças, que enxergam na determinação uma tentativa de favorecer a velha imprensa e intimidar quem apoia o Razão – único veículo 100% pró-polícia em Santa Catarina. Para muitos militares, o comando não apenas abandona a base operacional, mas agora também busca silenciar quem defende a imagem da própria corporação diante da população.
Desigualdade interna e favorecimento
A insatisfação também é alimentada pela sensação de injustiça dentro da própria corporação. Policiais relatam que colegas próximos ao comando, lotados em cargos administrativos ou no Tribunal de Justiça e Assembleia Legislativa, recebem gratificações e benefícios quase dobrados em comparação com quem atua nas ruas.
Essa disparidade cria o sentimento de que existem “duas polícias” dentro da mesma instituição: uma de elite, protegida e bem remunerada, e outra exposta, sobrecarregada e esquecida.

Falta de diálogo e perda de confiança
O novo plano de carreira, apresentado sem ampla consulta à base, foi a faísca para uma revolta que vinha sendo contida há anos. Policiais afirmam que o comando impõe decisões de cima para baixo, ignorando as demandas de quem enfrenta jornadas longas, falta de efetivo e sobrecarga emocional.
Muitos enxergam a proposta como mais uma tentativa de maquiar uma estrutura desigual que, na prática, premia a proximidade com o poder e pune quem está na linha de frente.
Um impasse que expõe feridas antigas
Para a base da PM catarinense, o discurso de valorização perdeu credibilidade. O novo plano não apenas falhou em corrigir distorções históricas, como evidenciou uma verdade incômoda: quem mais arrisca a vida é quem menos ganha e quem menos progride.
A tropa pede um debate real, que inclua critérios justos de progressão e revisão das faixas salariais. Até lá, o sentimento permanece o mesmo — o de que, dentro da própria instituição, a hierarquia virou sinônimo de desigualdade.
