A morte da professora Carla Denise Ely da Silva, 31 anos, na pequena cidade catarinense de Peritiba, abriu uma série de questionamentos sobre o histórico recente do ex-marido, Jailson da Silva, e a sequência de registros envolvendo o nome dele e da vítima nos últimos anos e meses. Levantamento exclusivo feito pelo Jornal Razão mostra que, pouco antes do feminicídio, havia uma disputa judicial pela guarda do filho do casal e uma sucessão de ocorrências que desenham um cenário de conflito crescente.
Carla foi assassinada na madrugada desta quinta-feira (19), dentro da própria residência, na comunidade de Linha Cruz e Souza. O ex-marido confessou o crime após ser localizado com um canivete sujo de sangue. Ele alegou que não aceitava o fim do relacionamento e apresentou versões que agora são alvo de investigação.
Relatos obtidos com exclusividade pela reportagem do Jornal Razão revelam que o casal estava separado desde novembro de 2025. Em janeiro de 2026, Jailson registrou boletins relatando supostos conflitos com a ex-companheira e mencionando disputa pela guarda do filho de 10 anos. Em um dos boletins de ocorrência, alegou que a criança estaria residindo com ele e que havia ingressado com pedido judicial para manter a guarda.
Em outro boletim, Jailson declarou ter recebido mensagens de ameaça via WhatsApp cobrando uma suposta dívida atribuída à ex-esposa. Segundo o relato dele, a cobrança estaria relacionada a drogas que teriam sido apreendidas pela polícia com a professora.
De fato, em 30 de janeiro, uma denúncia anônima informou à polícia que o veículo de Carla estaria sendo utilizado para tráfico de drogas e que haveria entorpecente escondido na porta do carro, estacionado em frente à creche municipal onde ela trabalhava. A guarnição foi até o local, monitorou o veículo por cerca de 40 minutos e não observou qualquer movimentação suspeita ou indício de comercialização.
Carla compareceu espontaneamente e autorizou a busca no carro. Após desmontagem do forro da porta dianteira, foram encontrados cinco cigarros de substância análoga à maconha, totalizando 5,3 gramas. Não havia nenhum indício de tráfico. O registro foi classificado como posse para uso pessoal.
No momento da ocorrência, Carla afirmou que acreditava que a droga teria sido “plantada” no veículo e declarou suspeitar do ex-marido, em razão da separação e da disputa judicial pela guarda do filho. A denúncia anônima foi repetida por telefone, inclusive com alguém ligando novamente ao Copom para perguntar quais procedimentos haviam sido realizados contra a suposta traficante.
A sequência de fatos levanta questionamentos que agora deverão ser aprofundados pela investigação: denúncia anônima detalhada indicando exatamente onde estaria a droga, monitoramento sem indício de tráfico, quantidade pequena de entorpecente e disputa judicial em andamento.
O histórico levantado pela reportagem do Jornal Razão também inclui registros de janeiro relatando supostas discussões e desentendimentos entre o ex-casal. Em pelo menos duas ocorrências classificadas como vias de fato, Jailson aparece como comunicante. Em uma delas, relatou que a ex-companheira teria ido até sua residência buscar o filho e estaria exaltada. Em outra, afirmou temer pela segurança da criança ao passar final de semana com a mãe.
Em 2022, há ainda um boletim envolvendo o nome de Jailson em uma acusação de estupro. O relato descreve denúncia de abuso ocorrido em 2021. Por envolver vítima cuja identidade precisa ser preservada, o Jornal Razão não divulgará detalhes adicionais do contexto nem qualquer informação que possa expor a pessoa citada. O caso, à época, foi formalmente registrado e passou a integrar os sistemas de investigação.
A sucessão de registros — disputa de guarda, alegações de ameaça, denúncia anônima de tráfico que não se confirmou e acusação grave registrada anos antes — pode indicar um padrão de conflito que se intensificou nos meses que antecederam o feminicídio.
Na madrugada do crime, Jailson alegou que estava sendo ameaçado por dívidas de drogas que atribuiu à ex-companheira. No entanto, a única apreensão registrada envolvendo Carla foi a dos cinco cigarros de maconha encontrados no veículo, sem qualquer comprovação de tráfico ou movimentação suspeita no local de trabalho.
Carla era professora de creche, descrita por pais como dedicada e paciente. Trabalhava em Alto Bela Vista e era conhecida na comunidade escolar. Deixa um filho com seu algoz.
Agora, com o ex-marido preso em flagrante, a investigação da Polícia Civil deverá analisar não apenas a dinâmica do crime, mas também o contexto que o antecedeu. A apuração vai precisar responder se a sequência de registros era reflexo de conflitos comuns em separações litigiosas ou se havia, de fato, uma tentativa de construir uma narrativa que colocasse a professora sob suspeita em meio à disputa pela guarda da criança.
Enquanto a cidade ainda tenta compreender a brutalidade do assassinato, os documentos revelam que a história entre os dois já vinha sendo escrita em boletins muito antes da madrugada que terminou em tragédia.

