O piloto Elves de Bem Crescêncio afirmou ter feito “de tudo, até o último minuto” para pousar o balão e salvar os passageiros a bordo no dia 21 de junho, data do acidente que resultou na morte de oito pessoas em Praia Grande, no sul de Santa Catarina. Em entrevista à emissora APOST TV, ele detalhou passo a passo o que ocorreu desde a decolagem até a queda do equipamento, e também se defendeu das acusações de que teria atuado de forma irregular.
O balão envolvido no acidente havia decolado com 21 pessoas a bordo. O incêndio teve início durante o voo, e o piloto realizou uma manobra de descida forçada em uma área de lavoura. Treze pessoas conseguiram saltar ainda durante a descida. Após o pouso, o balão voltou a subir e caiu em seguida, matando as outras oito vítimas.
Segundo Elves, o balão havia sido adquirido há apenas 10 meses e tinha realizado menos de 50 voos. Ele afirma que o equipamento estava em perfeitas condições e que cumpria todas as exigências da RBAC 103, regulamentação da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) voltada para o aerodesporto.
“A gente tinha toda a documentação exigida para o tipo de voo que eu realizava. Meu cadastro de piloto, o cadastro do balão e o certificado de verificação do equipamento estavam todos em dia”, declarou o piloto.
“Extintor não funcionou”
Elves afirma que o fogo começou na capa de proteção de um dos tanques de gás, por volta do quarto minuto de voo. “Notei um cheiro de queimado que não era comum. Quando olhei para baixo, vi uma chama de uns 30 por 30 centímetros”, afirmou. O local atingido era o cockpit, área central do cesto, onde apenas o piloto permanece durante o voo.
A primeira tentativa de conter as chamas foi com os pés. Em seguida, o piloto relata ter pego o extintor de incêndio — que veio junto com o balão e estava dentro do prazo de validade. No entanto, ao acionar o equipamento, nada aconteceu.
“Não saiu pó, não saiu nada. Tirei o lacre e ele simplesmente não funcionou. Então descartei o extintor e tentei outra estratégia”, relatou. Ele também jogou um maçarico auxiliar para fora do cesto, temendo que o equipamento pudesse piorar a situação por estar próximo ao fogo.
Ao perceber que as chamas se intensificavam, o piloto tentou remover o tanque em chamas. A cinta superior foi solta, mas a inferior, que estava exatamente onde o fogo havia se concentrado, não pôde ser desfeita. “Subi na borda do cesto e tentei puxar o tanque. Ele vinha uns sete ou oito centímetros, mas não saía totalmente. Eu não tinha mais como apagar aquilo.”
Ele também atribuiu a progressão rápida do incêndio ao funcionamento das válvulas de alívio dos tanques de gás. “Essas válvulas são feitas para evitar explosão, mas elas liberam o gás quando há muita pressão. E como o fogo estava exatamente ali, isso só alimentava mais as chamas.”
Decisão por pouso de emergência
Sem conseguir apagar o fogo, o piloto diz que abriu a válvula superior do balão, chamada de “tap”, com o objetivo de acelerar a descida. Segundo ele, o balão já vinha descendo a cerca de 3 metros por segundo, mas a manobra aumentou essa velocidade para 5 metros por segundo.
“Ao ver que o impacto com o solo seria forte, orientei os passageiros a se abaixarem. Faltando alguns metros para o pouso, gritei para que pulassem. Era a única forma de tentar salvá-los”, disse.
Elves relata que, por não conseguir acessar o interior do cesto — tomado pelas chamas —, precisou permanecer na borda. No momento do pouso, ele foi arremessado para fora do balão. “Caí na lavoura de arroz, no meio do lodo. O cesto bateu no chão e arrastou por cerca de 50 metros. Foi nesse momento que conseguimos salvar 12 ou 13 passageiros, que pularam durante o arrasto.”
De acordo com ele, o alívio de peso provocado pela saída dos passageiros e a intensa chama interna fizeram com que o balão voltasse a subir logo em seguida. Uma passageira que não conseguiu pular ficou pendurada do lado de fora, a cerca de 20 metros do chão.
“Gritei para ela não pular, porque imaginei que o balão desceria de novo. Já fazia mais de um minuto e meio que eu não maçaricava o balão. A expectativa era que ele perdesse altitude naturalmente, mas ela não conseguiu se segurar e caiu.”
Vítima foi encontrada já sem vida
Após a queda da passageira, Elves correu até ela e tentou aplicar os primeiros socorros. Ele relata ter verificado pulso, respiração e tentado reanimá-la. “Mas ela já estava em óbito. Tirei minha jaqueta, cobri o corpo e peguei o rádio para organizar a equipe que vinha ao encontro do local onde o cesto caiu.”
O piloto afirma que ainda tentou salvar outras vidas, mas que não foi possível. “O balão já estava completamente destruído. Desde o momento em que vi a chama até ele se consumir totalmente, se passaram quatro minutos. Foi muito rápido.”
Permanência no local e ajuda nas buscas
Mesmo ferido e com queimaduras nas pernas, Elves permaneceu no local por cerca de duas horas após o acidente. Ele afirma ter entrado em contato com a Polícia Militar, solicitado o Instituto Médico Legal (IML), o Corpo de Bombeiros e auxiliado na montagem de uma lista com os sobreviventes e desaparecidos.
“Passei minha documentação, o cadastro de piloto, o cadastro do balão e a lista de passageiros para a polícia. Fiquei até montarmos tudo para iniciar as buscas por quem ainda estava desaparecido.”
Defesa diz que piloto não pode ser responsabilizado
A advogada criminalista que assumiu a defesa de Elves, que também esteve presente na entrevista, afirma que o piloto não pode ser responsabilizado criminalmente. Segundo ela, ainda não há nenhuma conclusão pericial que determine a origem do fogo no cesto do balão.
“O direito penal pune a conduta do agente, e não o resultado. A análise deve ser sobre como ele agiu. E o que vemos aqui é um piloto que tomou todas as medidas possíveis para salvar vidas, inclusive colocando a própria em risco.”
Ela também criticou o que chamou de “clamores públicos” e defendeu que o inquérito policial, em curso, precisa ser conduzido com base em provas técnicas. A expectativa da defesa é de que o Ministério Público se manifeste pelo arquivamento do caso.
ANAC afirma que piloto não tinha licença para voo comercial
A Agência Nacional de Aviação Civil divulgou nota afirmando que o piloto não possui licença de piloto de balão livre (PBL) e que o balão não era certificado para operações de transporte remunerado de passageiros. A defesa sustenta, no entanto, que a operação era realizada conforme as regras do RBAC 103, que regula o aerodesporto.
“É como se o acidente fosse de moto e a ANAC dissesse que eu não tinha habilitação de carro”, comparou Elves.
Futuro indefinido
Questionado sobre sua relação com o balonismo após o acidente, o piloto afirmou que não pretende pensar nisso agora. “Esse não é o momento. Meu foco é ajudar a esclarecer tudo. Eu quero entender de onde surgiu aquela chama, por que o extintor não funcionou. Isso é o mais importante agora.”
