Jovem de SC fará tratamento com polilaminina após mergulhar no mar e ficar tetraplégico

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O que começou como um domingo comum de verão no litoral sul de Santa Catarina terminou em um acidente que mudou completamente a vida de um jovem e mobilizou uma corrente de esperança em torno de um tratamento experimental que vem chamando atenção da medicina brasileira.

Alison Carvalho Saldivia, morador de Balneário Gaivota, tinha apenas 19 anos quando sofreu um grave acidente durante um mergulho no mar. O impacto provocou uma lesão severa na medula e transformou, em poucos segundos, uma rotina comum em uma batalha diária pela recuperação.

Ele foi socorrido por equipes do SAMU e levado às pressas para o Hospital Dom Joaquim, em Sombrio, unidade administrada pelo IMAS. Ao chegar ao hospital, Alison já não sentia as pernas. O quadro indicava um trauma grave na coluna.

Nas horas seguintes, o jovem passou por uma cirurgia delicada. Após o procedimento, permaneceu internado na Unidade de Terapia Intensiva, enquanto médicos avaliavam a extensão dos danos causados pelo acidente.

As informações repassadas à família foram duras. Segundo avaliação médica, a lesão comprometeu severamente os movimentos do corpo. Os médicos indicaram que Alison não voltaria a andar e que os movimentos das mãos também haviam sido afetados, podendo retornar apenas parcialmente com o tempo e com intensa reabilitação.

A partir daquele momento, a vida da família precisou ser completamente reorganizada.

O retorno para casa passou a exigir uma série de adaptações estruturais e cuidados permanentes. A mãe do jovem tomou uma decisão difícil: deixar o trabalho para se dedicar integralmente ao cuidado do filho. Ela também precisará se mudar para a casa dos próprios pais para conseguir dar conta da nova realidade.

Entre as necessidades imediatas estão cadeira de rodas, cadeira de banho, colchão hospitalar, colar cervical e outros equipamentos fundamentais para garantir conforto, mobilidade e segurança no dia a dia.

Diante da situação, amigos e familiares organizaram uma campanha solidária para ajudar nos custos da nova rotina de cuidados e das adaptações necessárias na residência.

Em meio ao cenário de dificuldades, um novo capítulo começou a surgir na história de Alison.

O Hospital Dom Joaquim, em Santa Catarina, confirmou que o jovem será um dos pacientes a receber a aplicação da substância conhecida como polilaminina, um tratamento experimental que vem sendo estudado há décadas por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A substância foi desenvolvida a partir de pesquisas lideradas pela professora Tatiana Coelho de Sampaio, do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ. Os estudos começaram ainda na década de 1990, quando cientistas passaram a investigar o potencial da laminina, uma proteína presente naturalmente no organismo humano e que desempenha papel importante na regeneração e na comunicação entre células.

A partir dessas pesquisas, foi desenvolvido um polímero sintético chamado polilaminina, capaz de reproduzir algumas propriedades dessa proteína. A hipótese estudada pelos pesquisadores é que a substância possa estimular processos de regeneração de tecidos nervosos danificados.

Quando aplicada diretamente na região da lesão da medula, a polilaminina pode ajudar a reorganizar conexões nervosas interrompidas pelo trauma, criando condições para que sinais voltem a circular entre o cérebro e o corpo.

Em alguns relatos preliminares divulgados nos últimos anos, pacientes com lesões medulares apresentaram sinais de melhora após o tratamento, incluindo recuperação parcial de movimentos e sensibilidade.

Apesar da repercussão positiva, especialistas ressaltam que a substância ainda está em fase experimental. Isso significa que os resultados ainda precisam passar por estudos clínicos mais amplos para comprovar de forma definitiva a segurança e a eficácia do tratamento.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou o uso da polilaminina em caráter experimental dentro de protocolos específicos, permitindo que hospitais habilitados participem das aplicações supervisionadas.

O Hospital Dom Joaquim, em Sombrio, passou a integrar esse protocolo. A primeira aplicação da substância na unidade ocorre com acompanhamento de profissionais ligados à UFRJ, que orientam a equipe médica local durante o procedimento.

Além de beneficiar o paciente, a aplicação também servirá para capacitar os profissionais da instituição catarinense no protocolo experimental, ampliando o conhecimento técnico sobre o procedimento.

Para Santa Catarina, a realização da aplicação representa um marco importante, já que coloca uma unidade hospitalar do estado no centro de uma das pesquisas médicas brasileiras mais acompanhadas dos últimos anos.

Para Alison e sua família, o momento mistura expectativa e cautela.

De um lado, existe a dura realidade de uma lesão medular que mudou completamente os planos de vida de um jovem de apenas 19 anos. De outro, surge a possibilidade de participar de um tratamento experimental que carrega consigo a esperança de milhares de pacientes que convivem com lesões semelhantes.

Enquanto a medicina segue investigando os limites e o potencial da polilaminina, a história de Alison se tornou símbolo de algo maior: a busca por novas respostas da ciência para um dos desafios mais complexos da neurologia.

Em Sombrio, no extremo sul de Santa Catarina, o procedimento não representa apenas um avanço científico. Para uma família que viu a vida mudar em segundos, ele também carrega a esperança de que o futuro ainda possa reservar novos caminhos.

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