Servidores da Secretaria de Saúde de Tijucas realizaram um protesto em frente a uma unidade de saúde do município após o prefeito Maickon Sgrott (PL) anunciar a criação de uma junta de perícia médica para avaliar os atestados de funcionários públicos. Os profissionais se vestiram de preto e exibiram cartazes com as frases “a saúde está de luto” e “sem respeito não há cuidado”.
No cartaz principal, os servidores escreveram: “A ‘farra de atestados’ tem nome: exaustão mental”. A manifestação é uma resposta direta ao termo utilizado para descrever o volume de afastamentos registrados na Prefeitura nos últimos anos. Para os funcionários, os atestados não representam abuso, mas sim reflexo do esgotamento causado pelo excesso de trabalho.
Os números que motivaram o decreto
A medida foi anunciada após a Prefeitura identificar um crescimento expressivo nos afastamentos. Em 2023, cerca de 400 servidores apresentaram atestado. Em 2024, o número subiu para 600 funcionários, com aproximadamente 9 mil dias de licença. Em 2025, mais de 800 servidores se afastaram, acumulando 16 mil dias de atestado de um quadro total de cerca de 2 mil funcionários. No total, foram mais de 2 mil atestados em três anos. A previsão da gestão é de que o número chegue a 20 mil dias caso a tendência se mantenha.
O Decreto nº 2906, publicado em 30 de janeiro de 2026, regulamenta a inspeção médica oficial e disciplina a contratação de um serviço especializado de perícia para avaliar os afastamentos.
“A população tem o direito de ser bem atendida”, afirmou Sgrott. O município atende mais de 8 mil alunos na rede educacional e presta serviço de saúde para uma população de quase 60 mil habitantes.
Segundo Maickon, a perícia não é uma perseguição, mas um instrumento de diagnóstico. “Quinze mil atestados me dizem uma coisa: tem muita gente adoecendo. E quando tem muita gente adoecendo, o meu dever como prefeito é entender o porquê”, afirmou. O prefeito disse que a junta médica vai funcionar como um “raio-x” da saúde dos servidores, identificando se os afastamentos têm relação com saúde mental, sobrecarga, condições de trabalho ou outros fatores que a Prefeitura possa atuar para resolver.
Sgrott também fez uma distinção entre os servidores que necessitam do afastamento e aqueles que, segundo ele, estariam se valendo do atestado sem real necessidade. “Servidor que está doente tem todo o meu respeito e vai ter todo o apoio da Prefeitura. Atestado é um direito e vai continuar sendo respeitado”, disse. Na sequência, o prefeito foi mais incisivo: “Mas existe também aquele que está usando o atestado pra não trabalhar. Que sobrecarrega o colega que está honrando o compromisso. Pra esse, o recado é claro: acabou”.
De acordo com o prefeito, o servidor que trabalha com responsabilidade é o primeiro prejudicado quando há ausências sem necessidade, e é justamente esse profissional que a gestão quer valorizar e proteger.
Investimentos na saúde desde 2025
Além da criação da perícia médica, a Prefeitura afirma que tem investido no reforço do quadro de profissionais da Saúde desde o início da gestão. De acordo com dados de chamamentos públicos da Secretaria de Saúde, foram contratados mais de 120 novos profissionais entre janeiro de 2025 e março de 2026.
Entre os servidores públicos contratados estão 13 técnicos de enfermagem, 8 enfermeiros, 8 médicos clínicos gerais plantonistas, 8 auxiliares de serviços gerais, 6 recepcionistas em saúde pública, 4 psicólogos, 4 fisioterapeutas, 3 auxiliares administrativos, 3 auxiliares contábil-financeiro, 2 assistentes administrativos, 2 fiscais técnicos em vigilância sanitária, 2 médicos ginecologistas, 1 médico cardiologista, 1 médico clínico geral, 1 médico pediatra, 1 médico psiquiatra, 1 médico otorrinolaringologista, 1 médico urologista, 1 assistente social, 1 educador físico, 1 farmacêutico, 1 fonoaudiólogo, 1 odontólogo e 6 motoristas, totalizando 80 vagas.
No quadro de empregos públicos da Saúde, foram contratados outros 47 profissionais: 10 agentes comunitários de saúde, 10 técnicos de enfermagem da Estratégia Saúde da Família, 8 enfermeiros da ESF, 6 médicos clínicos gerais da ESF, 5 agentes de combate às endemias, 3 odontólogos da ESB, 1 auxiliar de consultório odontológico, 1 motorista do SAMU, 1 psicólogo do CAPS, 1 técnico de enfermagem do CAPS e 1 técnico de enfermagem do SAMU.
O prefeito afirmou que o reforço no quadro visa reduzir a sobrecarga dos profissionais que já estavam atuando. “Servidor com equipe completa, com estrutura, com condição de trabalho, adoece menos. É nisso que a gente está investindo”, declarou.
Expediente integral e a escalada nos números
O prefeito também lembrou que, no terceiro dia de mandato, em janeiro de 2025, determinou que a Prefeitura passasse a funcionar em expediente integral. Antes disso, o órgão operava em horário reduzido. A coincidência entre a ampliação do expediente e o aumento nos afastamentos foi reconhecida pelo próprio gestor como um ponto chamativo.
Os dois lados do debate
De um lado, os servidores sustentam que o alto número de atestados é consequência direta da sobrecarga de funções e do adoecimento mental. De outro, a Prefeitura argumenta que os números são alarmantes e que o crescimento de quase 80% nos dias de licença entre 2024 e 2025 exige investigação. A gestão sustenta que a perícia vai tanto identificar possíveis abusos quanto mapear o adoecimento real dos servidores para que a Prefeitura possa atuar com políticas de saúde e melhoria nas condições de trabalho.

