Ratinho desiste de disputar a presidência contra Lula e deixa João Rodrigues em saia justa em SC

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O governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), anunciou nesta segunda-feira (23) que desistiu de disputar a Presidência da República e que seguirá no cargo até o fim do mandato. A decisão, tomada na noite de domingo após o que o governador chamou de “profunda reflexão com a família”, foi comunicada ao presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, e retira do partido o nome mais competitivo que a sigla tinha para enfrentar a polarização entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) na corrida pelo Planalto.

Conforme o comunicado oficial, Ratinho Junior justificou a saída alegando compromisso com os paranaenses firmado nas eleições de 2018. O governador disse que, ao encerrar o mandato em dezembro, pretende voltar ao setor privado e presidir o Grupo de Comunicação criado pelo pai, o apresentador Ratinho. Sem renunciar ao cargo, Ratinho Junior sequer poderá concorrer ao Senado pelo Paraná. Na pesquisa Quaest de março, o governador aparecia com 7% das intenções de voto, contra 37% de Lula e 30% de Flávio Bolsonaro, cenário que praticamente inviabilizava o avanço ao segundo turno.

Impacto direto em Santa Catarina

A desistência tem efeito imediato sobre o tabuleiro político de Santa Catarina. A candidatura de João Rodrigues (PSD) ao governo do Estado estava diretamente vinculada ao projeto nacional do partido. Com Ratinho Junior como candidato à Presidência, o PSD teria palanque, tempo de televisão, estrutura de campanha e, principalmente, a justificativa política para enfrentar o governador Jorginho Mello (PL), aliado direto da família Bolsonaro.

Sem esse eixo nacional, a tendência é que o PSD se disperse nos Estados e busque acomodações com partidos maiores. Em Santa Catarina, o cenário já era de crise aberta antes mesmo do anúncio de Ratinho Junior. Na última semana, o PSD catarinense atravessou um dos momentos mais delicados da sua trajetória recente, com perdas políticas relevantes e fissuras internas expostas publicamente.

Debandada no PSD catarinense

O prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, oficializou em 19 de março seu pedido de desfiliação do PSD em carta aberta com tom incisivo, na qual classificou a movimentação de João Rodrigues como um projeto pautado por “ego, vaidade e sede de poder”. A saída foi voluntária e antecipou um processo disciplinar que a executiva estadual havia protocolado por infidelidade partidária, após Topázio declarar publicamente apoio à reeleição de Jorginho Mello. Com a desfiliação, a reunião do diretório que votaria a expulsão foi cancelada.

Horas depois de Topázio, o secretário de Articulação Internacional do governo, Paulinho Bornhausen, também anunciou sua desfiliação do PSD, reafirmando apoio incondicional à reeleição de Jorginho Mello e indicando que deve se filiar ao PL. Ao optar por sair do PSD e alinhar-se ao governador, Paulinho se colocou em posição oposta à do próprio pai, o ex-governador Jorge Bornhausen, que havia gravado vídeo dias antes respaldando a candidatura de João Rodrigues. Na mesma semana, Jorge Bornhausen havia criticado o que chamou de “impetuosidade” de João Rodrigues e sugerido nomes alternativos para a disputa, como o presidente da Assembleia Legislativa, Júlio Garcia (PSD), e o ex-prefeito de Blumenau, Napoleão Bernardes (PSD).

Renúncia cancelada e pré-candidatura adiada

O timing é devastador para o prefeito de Chapecó. João Rodrigues havia marcado para o dia 21 de março, na Get Church, em Chapecó, o ato público de renúncia à prefeitura e lançamento da pré-candidatura ao governo. Porém, cancelou o evento de última hora, alegando dificuldades logísticas causadas pela realização da Mercoagro na cidade. Rodrigues indicou que as definições ficariam para depois de 4 de abril, prazo legal de desincompatibilização. Até a publicação desta reportagem, João Rodrigues permanece como prefeito de Chapecó e não formalizou a renúncia.

Seguir adiante agora significa enfrentar Jorginho Mello com o partido rachado, sem o suporte de uma candidatura presidencial que dava sentido ao projeto e tendo perdido dois dos quadros mais expressivos do PSD na capital do Estado. Voltar atrás preservaria o mandato na prefeitura, mas representaria derrota política para quem anunciou publicamente que não havia mais volta.

Ratinho Junior era a peça central

Em todos os eventos do PSD nos últimos dois anos, Ratinho Junior era apresentado como a peça central do projeto nacional. Ele esteve no lançamento da pré-candidatura de João Rodrigues em Chapecó, em março de 2025, e no encontro estadual do PSD em Balneário Camboriú, em setembro do mesmo ano, quando Kassab confirmou publicamente que Rodrigues seria o candidato do partido ao governo catarinense. Em 16 de março deste ano, Ratinho Junior ainda participava de entrevista na Band, ao lado de Caiado e Eduardo Leite, apresentando propostas como pré-candidato à Presidência. Uma semana depois, saiu da disputa.

A lógica que sustentava a candidatura em Santa Catarina era objetiva: com o PSD disputando a Presidência, o partido precisaria de candidatos ao governo nos principais Estados para puxar votos e eleger bancadas na Câmara e nas Assembleias Legislativas. Sem essa engrenagem, manter candidatura ao governo contra um governador com mais de 40% das intenções de voto e o apoio da família Bolsonaro se torna uma operação sem retorno garantido.

Crise acelerada e debandada no Paraná

O cenário se agrava quando se considera a crise que o PSD catarinense já enfrentava. Em apenas uma semana, o partido perdeu Topázio Neto e Paulinho Bornhausen, sofreu trocas públicas de críticas entre João Rodrigues e Jorge Bornhausen e viu o prefeito de Chapecó cancelar a renúncia que vinha anunciando havia meses. No Paraná, a debandada do PSD também se acelerou: Rafael Greca se filiou ao MDB, Alexandre Curi caminha para o Republicanos e o partido Novo comunicou oficialmente que deixará o grupo político de Ratinho Junior para se alinhar a Flávio Bolsonaro e Sergio Moro, que deve se filiar ao PL nesta terça-feira (24).

Se o PSD fechar acordo nacional com o PL, apoiando Flávio Bolsonaro no segundo turno ou compondo em troca de espaço em eventual governo, seria praticamente impossível manter candidatura estadual contra Jorginho Mello em Santa Catarina. O governador catarinense é um dos principais aliados da família Bolsonaro no Sul do Brasil e qualquer composição nacional entre PSD e PL passaria necessariamente pela desistência do enfrentamento em solo catarinense.

Jorginho Mello sai fortalecido

Jorginho Mello emerge mais uma vez como o grande beneficiado. Com a chapa já sacramentada ao lado de Adriano Silva (Novo) como vice, Carol de Toni e Carlos Bolsonaro ao Senado, e um bloco que reúne PL, Republicanos, Podemos e Novo, o governador pode arrancar a corrida eleitoral com algo próximo de 25 deputados estaduais na largada. Neste fim de semana, o deputado federal Valdir Cobalchini (MDB) declarou apoio à reeleição de Jorginho em evento em Caçador, mesmo sem o partido ter definido oficialmente seu posicionamento, sinalizando que até o MDB pode caminhar para a órbita do governador. Se João Rodrigues recuar, o caminho para uma reeleição no primeiro turno e para a construção da maior bancada pró-governo da história da Assembleia Legislativa de Santa Catarina ficaria praticamente aberto.

Poucas opções para João Rodrigues

Para João Rodrigues, restam poucas opções. Seguir na disputa ao governo sem sustentação nacional e com o partido esvaziado, migrar para uma candidatura ao Senado formando chapa com o senador Esperidião Amin, ou negociar espaço dentro do projeto de Jorginho Mello. Nenhuma das alternativas se compara ao projeto original que o levou a anunciar a renúncia à prefeitura de Chapecó.

Até a publicação desta reportagem, João Rodrigues e a direção estadual do PSD em Santa Catarina não haviam se manifestado oficialmente sobre os impactos da desistência de Ratinho Junior na estratégia do partido no Estado. A expectativa agora gira em torno das definições prometidas para o início de abril, que devem indicar se o prefeito seguirá ou não na corrida pelo governo.

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