“Podem latir”, diz Hilton ao assumir Comissão da Mulher; Zanatta chama de ‘derrota para as mulheres’

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Erika Hilton (PSOL-SP) assumiu o comando do colegiado com 11 votos após estratégia da oposição feminina ser derrubada por dois deputados homens que completaram o quórum no segundo turno. Parlamentares e senadores classificaram a eleição como “derrota histórica para as mulheres brasileiras”.

A Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados foi instalada na quarta-feira (11) em meio a uma das maiores polêmicas do ano legislativo. A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) foi eleita presidente do colegiado responsável por discutir políticas públicas voltadas à proteção das mulheres brasileiras, incluindo maternidade, amamentação e enfrentamento à violência de gênero. A eleição, no entanto, não foi tranquila. No primeiro turno, a chapa única oferecida pelo PSOL foi barrada: 10 votos favoráveis contra 12 em branco. A maioria absoluta exigida não foi alcançada por nenhum dos lados.

A estratégia das deputadas contrárias à indicação era clara, conforme revelou a deputada Júlia Zanatta (PL-SC): não dar quórum para o segundo turno e impedir a votação. E foi exatamente nesse ponto que a situação virou. Dois deputados homens, Otoni de Paula e Sérgio Santos, registraram presença e votaram, completando o quórum necessário para a segunda rodada. No segundo turno, que exigia apenas maioria simples, Hilton foi eleita com 11 votos favoráveis e 10 em branco.

A ironia não passou despercebida. Em uma comissão criada para discutir a vida das mulheres, foram dois homens que garantiram a viabilidade da eleição. Zanatta, visivelmente revoltada, se pronunciou nas redes sociais minutos após o resultado. “As mulheres estiveram unidas para derrubar a chapa oferecida pelo PSOL. Conseguimos barrar em primeiro turno. No segundo turno, dois homens votaram, não importa se votaram sim ou não, eles deram quórum para que a chapa fosse eleita”, disse a deputada catarinense, que classificou o episódio como uma “derrota histórica para as mulheres na semana da mulher”. Em tom irônico, Zanatta sugeriu indicar o Sargento Fahur (PL-PR) para presidir a comissão no próximo ano.

A reação ao resultado não se limitou à Câmara. No Senado, Damares Alves (Republicanos-DF) subiu à tribuna e fez um discurso duro. Segundo a senadora, a eleição representa um risco aos espaços historicamente conquistados pelas mulheres. A deputada Clarissa Tércio (PP-PE) afirmou que a presidência deveria ser ocupada por uma “mulher de fato” e classificou a escolha como um retrocesso para a pauta feminina. Rosângela Moro (União-SP) definiu o resultado como uma “vitória sem glória”.

O apresentador Ratinho também comentou o assunto durante seu programa no SBT, criticando a eleição. O trecho viralizou e gerou forte repercussão. A deputada Duda Salabert (PDT-MG) acionou o Ministério Público contra o apresentador.

Um dos pontos que mais alimentou a indignação nas redes sociais é o histórico de votações da nova presidente da comissão. Em julho de 2025, a Câmara aprovou o PL 1.112/2023, que endurece as regras de progressão de regime para condenados por crimes hediondos. O projeto elevou de 40% para 80% o tempo mínimo de cumprimento da pena antes de qualquer benefício, incluindo crimes como estupro de vulnerável, feminicídio e latrocínio. A votação teve 334 votos favoráveis e 65 contrários. Erika Hilton votou contra o projeto, ao lado da bancada do PSOL e da maioria do PT. O deputado Rubinho Nunes questionou nas redes: “É sério que colocaram na presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher alguém que votou contra o aumento da pena para estupradores e assassinos de mulheres?”

Outro episódio mencionado por parlamentares é o caso da feminista Isabella Cêpa. Em 2020, a designer gráfica e ativista comentou nas redes sociais o resultado das eleições municipais de São Paulo, afirmando que estava decepcionada porque a “mulher mais votada era um homem”, em referência a Hilton, eleita vereadora naquele ano. A fala resultou em uma representação formal de Erika Hilton, e o caso foi enquadrado na Lei do Racismo por transfobia. Após sofrer ameaças e enfrentar o processo, Isabella deixou o Brasil em 2022. Em agosto de 2025, obteve status de refugiada em um país do Leste Europeu, no que foi considerado o primeiro caso de asilo político concedido pela União Europeia a uma brasileira por perseguição ligada a opinião sobre identidade de gênero. Em setembro de 2025, o ministro Gilmar Mendes rejeitou o recurso de Hilton e manteve o arquivamento da ação. Zanatta mencionou o caso diretamente em seu pronunciamento: “O mais indignante é que qualquer mulher que tentar falar qualquer coisa contra isso vai ser processada. A pessoa que vai ocupar a cadeira de presidente da Comissão da Mulher já perseguiu uma feminista e essa feminista está fora do país como refugiada. Porque falou o óbvio.”

Em seu discurso de posse, Hilton rebateu as críticas sem citar nomes. Declarou que a comissão vai discutir a vida de todas as mulheres, incluindo trans e travestis, e afirmou que sua gestão será plural e democrática. Direcionou um recado às opositoras: “Eu recomendo que vossas excelências vão discutir isso lá no departamento de biologia. Aqui nós vamos discutir mulheres.” A parlamentar também anunciou que entre as prioridades do colegiado estará o combate a conteúdos do movimento “red pill” nas redes sociais e a regulação de plataformas digitais.

A comissão funciona com a seguinte mesa diretora: Laura Carneiro (PSD-RJ) como primeira vice-presidente, Delegada Adriana Accorsi (PT-GO) como segunda vice-presidente e Socorro Neri (PP-AC) como terceira vice-presidente. A presidência da Comissão da Mulher havia sido destinada ao PSOL por acordo entre os líderes partidários no início do ano, durante a divisão das 30 comissões permanentes da Câmara. Hilton sucede Célia Xakriabá (PSOL-MG), que conduziu a sessão de instalação e a votação.

A polêmica segue repercutindo nas redes sociais e nos corredores do Congresso. O caso expõe a profundidade do racha político em torno das pautas de identidade de gênero no Brasil e levanta um debate que promete se intensificar ao longo de 2026, ano eleitoral.

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