Major trans da PMSC vai estudar Medicina na UFSC após aprovação polêmica

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Quando Lumen Lohn Freitas publicou em suas redes sociais a aprovação para o curso de Medicina da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a notícia rapidamente ultrapassou o círculo de amigos e admiradores. Aos 47 anos, major trans aposentada compulsoriamente da Polícia Militar de Santa Catarina, Lumen, conquistava a vaga pelo “vestibular suplementar”, voltado a grupos específicos.

Nas postagens, comemorava a realização de um sonho antigo. Em meio a emojis, falou da “coragem de recomeçar, da felicidade pela aprovação e da importância da representatividade”. Mas a repercussão tomou outro rumo.

Lumen é engajada em movimentos sociais

A divulgação da aprovação gerou uma avalanche de críticas, especialmente por parte de quem questiona o modelo de ingresso. O principal ponto da revolta foi o contraste entre a nota da candidata — cerca de 32 pontos em prova cuja pontuação máxima é 40 — e as notas exigidas no vestibular tradicional, onde a média para Medicina gira em torno de 70 a 80 pontos. Críticos acusaram favorecimento e uso ideológico da estrutura pública universitária.

Reprodução / Redes sociais

Quem é Lumen

Natural de Santa Catarina, Lumen é conhecida por uma trajetória marcada por múltiplas formações acadêmicas — já concluiu cursos superiores em Direito, Administração, Física, Matemática, Sociologia e Filosofia. Durante sua carreira militar, chegou ao posto de major da PMSC. Contudo, foi aposentada compulsoriamente em 2023, por decisão administrativa por parte do Governo do Estado, através do governador Jorginho Mello (PL).

Lumen nega irregularidades e afirma que sua saída foi motivada por “perseguição ideológica” e “transfobia” dentro da corporação. À época, a situação gerou embates públicos nas redes sociais e motivou protestos de movimentos LGBTQIA+ e entidades de direitos humanos.

Segundo dados do Portal da Transparência do Governo de SC, Lumen recebeu vencimentos superiores a R$ 60 mil em ao menos um mês de 2024, considerando verbas brutas acumuladas. A remuneração foi usada como argumento por opositores para criticar sua entrada em vaga pública de Medicina — curso extremamente disputado, que muitos associam ao início da vida acadêmica e profissional de jovens sem recursos.

A controvérsia

As críticas se concentraram em três eixos: a modalidade de ingresso, o histórico político da candidata e o suposto uso da UFSC como palco de campanha eleitoral.

A vaga foi conquistada por meio do vestibular suplementar, processo seletivo específico com nota máxima menor, menos conteúdo e voltado a públicos como indígenas, quilombolas e pessoas trans. Segundo a universidade, a modalidade está prevista em regulamentos internos e segue o princípio de ações afirmativas. No entanto, críticos alegam que o modelo permite distorções e afeta o equilíbrio do mérito.

O envolvimento político também entrou no debate. Lumen foi candidata a vereadora pelo PT em Florianópolis e participou de eventos e palestras dentro da própria UFSC ao lado de outros candidatos — incluindo atividades próximas ao período eleitoral.

Mesmo com vários diplomas, recursos financeiros e experiência profissional consolidada, Lumen usou um mecanismo pensado para minorias vulneráveis para conquistar mais uma vaga pública em um dos cursos mais disputados do país.

O que diz a UFSC

A universidade não comentou o caso específico, mas reafirma que todos os processos seletivos — incluindo o vestibular suplementar — seguem critérios técnicos, aprovados por conselhos internos. As vagas são públicas, com editais divulgados com antecedência, e o acesso é regulado por políticas de inclusão.

A nota máxima do vestibular suplementar é 40, com estrutura de questões distintas do vestibular regular.

O caso de Lumen expôs um embate crescente nas universidades brasileiras: o equilíbrio entre meritocracia e inclusão.

Ao mesmo tempo, o debate levantou dúvidas sobre o uso do ambiente universitário para articulações político-partidárias, especialmente em instituições públicas que deveriam prezar pela pluralidade de ideias.

Lumen, por sua vez, em breve vai começar mais uma graduação — agora em Medicina.

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