Esposa do ‘Xandão’: ‘Vivi Moraes’ admite que contrato de R$ 129 milhões com Vorcaro é real

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Após dias em silêncio, Viviane Barci de Moraes contratou assessoria de imprensa, confirmou a existência do contrato milionário com o Banco Master e tentou justificar os serviços prestados, mas sua versão sobre as mensagens contradiz a do próprio marido.

A esposa do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, quebrou o silêncio nesta segunda-feira (9) e, pela primeira vez, admitiu publicamente a existência do contrato milionário de seu escritório de advocacia com o Banco Master, do banqueiro Daniel Vorcaro, preso na Penitenciária Federal de Brasília.

Viviane Barci de Moraes divulgou uma nota em que afirmou ter produzido 36 pareceres e realizado 94 reuniões de trabalho para o Banco Master. A mudança de postura veio depois que a situação ficou insustentável: nos últimos dias, a advogada contratou uma assessoria de imprensa e passou a prestar esclarecimentos públicos, após a revelação de que o ministro trocou mensagens com Vorcaro no dia em que o empresário foi preso.

O contrato, encontrado pela Polícia Federal no celular apreendido de Vorcaro durante a Operação Compliance Zero, previa que o escritório recebesse uma remuneração mensal de R$ 3,6 milhões durante três anos, de 2024 a 2027. Um total de R$ 129 milhões. O valor já chamava atenção desde dezembro porque a advogada aparecia em poucos processos judiciais envolvendo o Master.

Viviane tenta justificar a bolada

Agora, acuada pela pressão, Viviane tentou justificar os valores. Segundo a nota do escritório, foram realizadas 79 reuniões presenciais na sede do Banco Master, 13 reuniões com a presidência da instituição e 2 reuniões por videoconferência. A banca afirmou que prestou consultoria e atuação jurídica com uma equipe de 15 advogados e que contratou outros três escritórios especializados para atuar sob sua coordenação.

A nota lista ainda elaboração de manuais de compliance, código de ética, políticas internas e atuação na área penal e administrativa, na análise consultiva e estratégica de inquéritos policiais, ações penais e ações civis públicas sigilosas. O escritório fez questão de frisar que nunca atuou em nenhuma causa do Banco Master perante o STF.

Órgãos federais não encontram vestígio da atuação de Viviane

Só que tem um problema. O contrato previa atuação direta em órgãos federais estratégicos. Ao menos três desses órgãos afirmam não ter registros da presença ou de reuniões da advogada no período em que o contrato esteve em vigor.

A Receita Federal declarou que, após consultar as agendas de suas principais autoridades, não encontrou registros de reuniões envolvendo Viviane Barci. O Cade afirmou que nem Viviane nem representantes do escritório participaram de reuniões para tratar do Master desde janeiro de 2024. A Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional também informou que não encontrou registros de ingresso da advogada em suas instalações em Brasília entre janeiro de 2024 e dezembro de 2025.

Ou seja: o contrato previa atuação em Banco Central, Cade, Receita Federal e PGFN, e nenhum desses órgãos encontrou qualquer vestígio da presença da esposa do ministro.

A contradição entre marido e mulher

No sábado (7), Viviane negou ter recebido a mensagem em que Vorcaro pergunta ao interlocutor se havia conseguido ter notícia ou bloquear alguma coisa. A mensagem foi enviada poucas horas antes de o banqueiro ser preso pela PF, em 17 de novembro de 2025.

Moraes, por sua vez, já havia dito que os prints das mensagens de Vorcaro estavam armazenados em pastas digitais junto com contatos de outras pessoas, e não dele. Acontece que na organização dos arquivos, o contato de Viviane Barci, registrado como “Vivi Moraes”, está na mesma pasta de um dos prints comprometedores do bloco de notas de Vorcaro. Se a lógica do ministro fosse verdadeira, a destinatária seria sua esposa. Viviane disse que não recebeu nada. As duas versões, de Moraes e da mulher, são incompatíveis.

A tese de defesa do ministro também envolveu o senador Irajá (PSD-TO), que teria sido o verdadeiro destinatário de outra mensagem, conforme a lógica das pastas. Irajá, em nota, disse não ter falado com Vorcaro e que a versão não tem sentido.

A própria estrutura das pastas dentro do programa IPED, desenvolvido há mais de 10 anos pela PF para extração e análise forense de dispositivos eletrônicos, inviabiliza a versão de Moraes. Conforme peritos ouvidos pela imprensa, a organização dos arquivos após a extração de dados de um celular não permite concluir automaticamente quem seria o destinatário, mas sim que a distribuição segue um algoritmo próprio do software.

O dia em que Vorcaro pediu para “bloquear”

O cenário fica ainda mais grave quando se olha para o comportamento de Vorcaro no dia da prisão. Segundo informações publicadas pelo jornal O Globo, às 7h19 daquele 17 de novembro, Vorcaro teria relatado a Moraes que havia um movimento contra ele e que uma jornalista estava fazendo perguntas. Às 17h26, teria enviado a mensagem cobrando atualizações e pedindo para bloquear alguma coisa. Moraes teria respondido por mensagens de visualização única, recurso que apaga o conteúdo depois de lido.

Mensagens atribuídas a Vorcaro em conversas com sua namorada, a influenciadora Martha Graeff, indicam que o banqueiro teria se encontrado pessoalmente com Moraes durante o feriado de 19 de abril de 2025. Nos diálogos, o empresário diz estar indo ao encontro do ministro perto de sua casa.

Antes de ser preso, Vorcaro dizia estar tranquilo sobre o assunto, afirmava que o escritório de Viviane havia prestado serviços reais ao banco e que ele teria como provar. Chegou a mostrar a tornozeleira eletrônica para dizer que, se Moraes tivesse interferido de fato, ele não estaria monitorado em prisão domiciliar.

Justiça fala em “pura camaradagem” e PGR rejeita investigar Moraes

A Justiça Federal em Brasília classificou a negociação entre o escritório de Viviane e o Master como resultado de “pura camaradagem”.

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, reconduzido ao cargo com apoio de Moraes, recebeu pelo menos dois pedidos para investigar a atuação do ministro em favor do Banco Master, mas rejeitou as solicitações. Segundo Gonet, a narrativa sobre suposta pressão de Moraes ficaria no campo das suposições.

O senador Eduardo Girão, do Partido Novo, afirmou que levará o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, ao Conselho de Ética por omissão e abuso de poder, diante da ausência de providências sobre o caso.

Próximos passos

O caso segue em investigação pela Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero, que apura fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master. A defesa de Vorcaro cobrou acesso aos dados brutos do aparelho para realizar uma perícia independente. A CPMI do INSS tem acesso ao material extraído do celular do banqueiro, e novos desdobramentos podem surgir nos próximos dias, à medida que mais mensagens forem analisadas.

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