João ameaça deixar disputa ao governo de SC e Jorginho poderá ter vitória histórica

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A poucos dias do ato de renúncia marcado para 21 de março em Chapecó, o prefeito João Rodrigues (PSD) enfrenta uma crise que pode definir não apenas o seu futuro político, mas o desenho inteiro da eleição de 2026 em Santa Catarina. Uma briga no grupo de WhatsApp da executiva estadual do PSD na última quarta-feira escancarou uma divisão que já se arrastava nos bastidores e colocou a candidatura do prefeito chapecoense ao governo do Estado em terreno instável.

O estopim foi a permanência do prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, no PSD, mesmo após declarar publicamente apoio à reeleição do governador Jorginho Mello (PL). Ao ler a notícia no grupo da executiva, João Rodrigues reagiu com um ultimato: ou Topázio sai do partido até 17 de março, ou ele revê a candidatura.

A resposta veio do ex-governador e ex-senador Jorge Bornhausen, com uma frase que resume décadas de experiência política: “Política se faz com paciência e não com ameaças.”

Frustrações acumuladas e chapa que não decola

A crise, no entanto, vai além da questão Topázio. Segundo apuração do Jornal Razão com base em relatos de diferentes fontes que acompanham os bastidores, João Rodrigues já vinha acumulando frustrações com a dificuldade de montar uma chapa competitiva. A permanência do deputado estadual Carlos Humberto no PL, depois de meses de articulação para que migrasse ao PSD, foi mais uma derrota no xadrez eleitoral do prefeito chapecoense.

A divisão dentro do PSD é antiga e conhecida. De um lado, a ala liderada pelo presidente estadual Eron Giordani, pelo presidente da Assembleia Legislativa Júlio Garcia e pelo próprio João Rodrigues defende candidatura própria ao governo. Do outro, o prefeito de Florianópolis Topázio Neto e o secretário de Articulação Internacional do governo, Paulinho Bornhausen, filho de Jorge Bornhausen, trabalham abertamente pela união entre PSD e PL em torno da reeleição de Jorginho Mello.

Raimundo Colombo como alternativa e o cenário nos bastidores

Conforme a colunista Maga Stopassoli, do Portal Upiara, caso João Rodrigues de fato recue, o substituto natural do PSD para a vaga de candidato ao governo seria o ex-governador Raimundo Colombo. Mas Colombo é um capítulo à parte. Ele nunca teve proximidade política com João Rodrigues, já foi cortejado pelo MDB para trocar de partido, e mantém relações com a ala Bornhausen do PSD, o que o posicionaria mais como um nome de conciliação do que como herdeiro do projeto original.

Nos bastidores, circula um desenho alternativo que colocaria Colombo como candidato ao governo pelo MDB, João Rodrigues ao Senado e o senador Esperidião Amin na outra vaga da Casa. É uma composição politicamente densa, mas que ainda depende de muitas peças se encaixarem em poucos dias, já que a janela partidária se encerra em 4 de abril.

Jorginho Mello como principal beneficiado

É nesse cenário de fragmentação da oposição que o governador Jorginho Mello emerge como o principal beneficiado. As pesquisas mais recentes já apontam liderança folgada: o levantamento Real Time/Big Data de dezembro de 2025 registrou 48% das intenções de voto para o governador contra 22% de João Rodrigues. Em um eventual segundo turno, a diferença se mantinha expressiva: 46,5% a 26,1%.

Mais do que a reeleição em si, que parece cada vez mais provável no cenário atual, o grande trunfo de Jorginho Mello pode estar na construção da maior bancada pró-governo da história de Santa Catarina na Assembleia Legislativa. Com a chapa já sacramentada ao lado de Adriano Silva (Novo) como vice, Carol de Toni e Carlos Bolsonaro nas duas vagas ao Senado, o bloco governista já parte com um arco partidário robusto. Somando apenas os aliados do Republicanos, Podemos e o Novo, o governador pode arrancar a corrida eleitoral com algo próximo de 25 deputados estaduais já na largada, número que configuraria um domínio histórico sobre a Assembleia Legislativa catarinense.

Riscos no tabuleiro governista

Há, porém, riscos nessa equação. A escolha de Carlos Bolsonaro para o Senado, em detrimento de Esperidião Amin, irritou setores do Progressistas e pode empurrar lideranças historicamente governistas para o campo adversário.

O senador Amin, preterido pela família Bolsonaro, sinalizou que segue como pré-candidato e recebe manifestações de apoio dentro do PP. Se a federação União Progressista decidir seguir caminho próprio, o tabuleiro muda.

A entrada eventual do MDB com candidatura própria, após o rompimento formal com o governo em janeiro, adiciona mais uma camada de incerteza. O partido, que havia integrado a base aliada com secretários no primeiro escalão, rompeu após a escolha de Adriano Silva para vice, cargo que havia sido prometido a um emedebista. A decisão unânime do diretório estadual orientou a construção de um projeto independente e a saída dos filiados de cargos no governo.

Semana decisiva para João Rodrigues

A avaliação de analistas políticos é que, mesmo com as turbulências, o favoritismo de Jorginho Mello permanece sólido. A combinação entre alta aprovação, apoio da família Bolsonaro e a provável divisão do voto conservador entre dois ou até três adversários cria um cenário que pode levar o governador a uma vitória no primeiro turno, repetindo a polarização que já favoreceu a direita em Santa Catarina em 2022, quando Bolsonaro obteve mais de 70% dos votos no segundo turno da eleição presidencial no Estado.

Para João Rodrigues, a semana que vem será decisiva. O ato de renúncia à prefeitura de Chapecó e o lançamento formal da pré-candidatura estão marcados para 21 de março, na Get Church, em Chapecó. A coletiva de imprensa prevista para amanhã no Hotel Mogano, também em Chapecó, deve trazer o pronunciamento oficial do prefeito sobre os próximos passos.

Caso Rodrigues recue, o PSD perde seu principal ativo eleitoral no Estado e a eleição ao governo de Santa Catarina pode se tornar uma caminhada ainda mais tranquila para Jorginho Mello. Caso insista, enfrentará a difícil tarefa de disputar o eleitorado conservador com um governador que tem a máquina, a aprovação e o sobrenome Bolsonaro a seu favor, enquanto seu próprio partido não lhe garante unidade.

Até a publicação desta reportagem, a assessoria de João Rodrigues não havia se manifestado oficialmente sobre o desfecho da crise interna. Uma fonte próxima ao prefeito confirmou que ele foi pego de surpresa pela escalada do conflito e que avalia o cenário nos próximos dias antes de tomar uma decisão definitiva.

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