Um produtor rural de Urubici, na Serra Catarinense, precisou descartar cerca de 50 toneladas de ameixa após não conseguir comercializar a produção. Imagens que circulam nas redes sociais mostram a fruta espalhada pelo chão da propriedade, em um retrato do prejuízo que atinge o campo catarinense em diversas culturas.
Crise não é só na ameixa
O caso de Urubici não é isolado. Santa Catarina vive uma crise generalizada no campo, com produtores de diferentes culturas enfrentando queda nos preços, excesso de oferta e dificuldade de comercialização. O cenário atinge a cebola, o arroz, o milho, a soja e até a maçã, que é símbolo do agronegócio catarinense.
Cebola: 7 cidades em emergência e prejuízo de até R$ 300 milhões
A situação mais grave está no setor da cebola. Sete municípios catarinenses decretaram situação de emergência econômica, incluindo Ituporanga, a capital nacional da cebola. Conforme dados da Epagri, o custo de produção é de aproximadamente R$ 1,40 por quilo, mas o valor pago ao produtor tem ficado em torno de R$ 0,70, menos da metade do necessário para cobrir os gastos.
Segundo levantamento do setor, cerca de 40% da safra ainda não foi comercializada e as perdas podem chegar a R$ 300 milhões em todo o estado. Em Ituporanga, centenas de produtores foram às ruas em protesto contra a crise. O próprio Jornal Razão noticiou o ato, em que agricultores denunciaram que a concorrência com a cebola importada agrava o cenário.
Arroz, milho e soja também sofrem
A colheita do arroz na safra 2025/26 avança em SC com 60% da área já colhida, mas em um cenário de forte pressão econômica. A produção estimada é de 1,2 milhão de toneladas, uma queda de 6,1% em relação à safra recorde anterior, conforme a Epagri. Os preços estão em baixa e os custos seguem elevados, comprometendo a rentabilidade dos produtores.
No milho, as cotações ao produtor catarinense começaram 2026 em queda, pressionadas pela safra recorde no Brasil e nos Estados Unidos. A soja também recuou, com preços caindo de R$ 125 para cerca de R$ 116 por saca em algumas praças do estado.
Maçã: safra 28% maior pressiona preços
A safra de maçã 2025/26 deve crescer 27,9% em Santa Catarina, segundo a Epagri. Embora a alta produção seja positiva em volume, o aumento da oferta já pressiona os preços no atacado. Na Ceasa/SC, o preço médio da fruta caiu 7,6% na comparação com janeiro de 2025.
Inadimplência recorde no campo
O cenário de crise se reflete nos números do crédito rural. Conforme dados apresentados pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a inadimplência no crédito rural com taxas de mercado atingiu 13,47% em janeiro de 2026, o maior nível desde o início da série histórica, em 2011. A entidade iniciou esta semana os debates regionais para o Plano Safra 2026/2027, com o crédito rural apontado como principal desafio.
O que falta para o campo
Produtores e entidades do setor cobram linhas de crédito com juros reduzidos, renegociação de dívidas, controle das importações nos períodos de pico da safra nacional e políticas públicas mais eficazes para o escoamento da produção. A avaliação é de que o problema não está na produtividade, mas na falta de mercado e na disparidade entre custos e preços de venda.
O caso da ameixa descartada em Urubici é mais um exemplo de como meses de trabalho no campo podem se transformar em prejuízo quando faltam políticas de apoio à comercialização.

