Um restaurante no bairro Sertãozinho, em Barra Velha, no Litoral Norte Catarinense, foi atacado por cerca de 20 motociclistas na madrugada da última sexta-feira, 17 de abril. O grupo soltou rojões, bombas e atirou blocos de tijolo contra o estabelecimento, horas depois de um desentendimento entre a família dona do local e um entregador da hamburgueria Vila do Chaves.
A família registrou boletim de ocorrência na Polícia Militar de Santa Catarina e afirma que também vai buscar responsabilização na Justiça. As denúncias foram feitas em vídeo e em nota pública divulgados pelo filho da proprietária, João, que trabalha no local como garçom. Segundo ele, a família era cliente da lanchonete Vila do Chaves há mais de quatro anos, com pedidos feitos quase diariamente.
Se tivesse alguém dentro do restaurante, como é que faz? Alguém morre por causa de um lanche?
Um lanche para a filha de 10 anos
Conforme o relato público da família, o pedido foi feito por volta das 21h29 de quinta-feira, 16 de abril. A mãe de João comprou um lanche para a filha, de 10 anos. O restaurante Panela de Barro funciona em pátio aberto, sem portão, às margens da BR-101. Segundo a família, o acordo histórico com a Vila do Chaves previa que o motoboy deixasse o pedido dentro do pátio, porque o local fica em trecho de rodovia e as entregas costumavam atrasar no período da noite.
A proprietária estava sentada na varanda do restaurante quando o entregador chegou. Ela se levantou, entregou o dinheiro ainda junto da moto e recebeu o lanche.
A palavra que começou tudo
Foi nesse momento, ainda conforme o relato, que o motoboy passou a chamar a dona do estabelecimento de “folgada” de forma repetida, em mais de três oportunidades. O marido da proprietária, padrasto de João, se levantou e afastou fisicamente o entregador do local.
Segundo a família, a criança de 10 anos presenciou a cena. O motoboy saiu cantando pneu com a moto, ainda conforme o relato.
“Vamos quebrar?” — o retorno à lanchonete
A mãe e o padrasto de João decidiram ir pessoalmente até a Vila do Chaves para esclarecer o ocorrido. Segundo o relato da família, foram recebidos com risadas pelos donos da lanchonete. Um dos motoboys que estava no local teria pegado o capacete e dito em voz alta “vamos quebrar?” em direção ao padrasto. A mulher do dono da lanchonete também teria se aproximado da mãe e da irmã de 10 anos de João “de forma hostil”, segundo a versão da família. O casal retornou para casa sem que a situação fosse resolvida.
0h39: a chegada do comboio
Por volta das 0h39 de sexta-feira, a irmã de João, de 10 anos, acordou com barulhos. A mãe olhou pela janela, viu o restaurante sendo atacado e começou a filmar a cena com o celular. Aproximadamente 20 motociclistas tomaram o corredor lateral do imóvel, soltaram rojões, bombas e foguetes contra a fachada e atiraram blocos de tijolo — inclusive tijolos retirados da própria obra que a família fazia no local — contra as janelas e contra um carro estacionado em frente.
Os vidros das janelas foram estilhaçados. A porta do estabelecimento foi arrombada. O carro teve os vidros quebrados. Segundo o relato, o grupo fugiu logo em seguida. A comerciante aguardou a chegada da Polícia Militar e, depois, permaneceu acordada até as 4h40 limpando os danos. Às 6h, já estava novamente de pé para trabalhar.
O imóvel não conta com câmeras de segurança.
O lado do motoboy
Em vídeo público gravado ao lado de um canal local, o motoboy envolvido na entrega, identificado como Adriano, apresentou uma versão diferente sobre o que teria dado origem à confusão.
Segundo Adriano, o dono do restaurante teria insistido quatro vezes para que ele entrasse no pátio e colocasse o lanche em cima de uma mesa, mesmo com a orientação da empresa para que os entregadores não entrem em propriedades alheias. O motoboy afirma que, após colocar o pedido sobre a mesa, disse ao cliente que era “pago somente para entregar, não para servir”.
Ainda segundo o entregador, o casal se alterou, passou a xingá-lo e o homem teria desferido um soco nas costas e um pontapé no momento em que ele saía do local. Adriano disse que, mesmo após a agressão, seguiu para outra entrega no bairro São Cristóvão.
De acordo com o motoboy, ao retornar à hamburgueria Vila do Chaves, foi avisado por colegas de que o dono do restaurante já estava no local à sua procura. Adriano afirma que o homem teria saído do carro com um facão e o guardado de volta no veículo em seguida. Segundo o entregador, havia clientes, crianças e idosos dentro do estabelecimento no momento, e uma idosa — mãe de outro motoboy — teria passado mal ao presenciar a cena.
Peço desculpas pelo que aconteceu na casa do senhor. Não sou esse tipo de pessoa. No meio daquelas pessoas também tinham pais de família que queriam conversar, mas tinha gente de pavio curto.
Adriano, motoboy
Adriano afirmou no mesmo vídeo que não conhece os motoboys que participaram do ataque ao restaurante e que seriam entregadores de outras regiões, que teriam agido por conta própria ao tomarem conhecimento da agressão que ele diz ter sofrido.
O apresentador que mediou a entrevista também condenou a depredação. Ele destacou que um idoso acamado mora ao lado do restaurante atacado e que os rojões poderiam ter atingido o morador.
Padrão que se repete em SC
O caso de Barra Velha se soma a uma sequência de episódios envolvendo grupos de motoboys em Santa Catarina no último mês. Em 23 de março, dezenas de entregadores se reuniram em Joinville e atacaram a casa de um homem que havia ameaçado um motoboy com facão após se recusar a pagar um pedido de R$ 120 em lanche. No dia seguinte, as imagens divulgadas pelo próprio Razão mostraram o tamanho do estrago: bombas, foguetes, rojões, pedras, portão arrebentado e sacos com fezes deixados na frente da residência.
No mesmo mês, o Razão também registrou um episódio em Balneário Camboriú em que um motorista foi flagrado com facão e simulacro de arma depois de jogar o carro contra um motoboy. Os casos, ainda que com dinâmicas diferentes, têm em comum a resposta coletiva e violenta da categoria a conflitos que poderiam ter sido resolvidos com diálogo ou pela via legal.
O que diz a lei
A depredação de um estabelecimento por um grupo pode configurar, em tese, dano qualificado (artigo 163, parágrafo único, do Código Penal), com pena de seis meses a três anos de detenção e multa, por ter sido cometido contra patrimônio particular com emprego de violência e por motivo egoístico. A soltura de rojões em via pública e em zona residencial também pode configurar o crime de perigo comum (artigo 132). A atuação concertada de mais de três pessoas pode ainda ser enquadrada como associação criminosa (artigo 288), a depender do que a investigação apurar.
Perguntas frequentes
A Vila do Chaves é a responsável pelo ataque?
Não há, até o momento, qualquer conclusão policial que responsabilize a hamburgueria pelo ataque ao restaurante. O motoboy Adriano, envolvido na entrega que deu início ao desentendimento, afirmou publicamente que não conhece os autores da depredação e que seriam entregadores de outras regiões. A apuração segue em curso.
A Polícia já identificou algum dos motociclistas?
Até a última atualização desta reportagem, a Polícia Militar de Santa Catarina havia registrado o boletim de ocorrência, mas não havia informação oficial sobre identificação dos suspeitos. O imóvel não possui câmeras de segurança próprias, mas há vídeos feitos pela família durante o ataque.
Motoboys são empregados ou prestadores de serviço em lanchonetes?
Depende do modelo de contratação. Alguns estabelecimentos mantêm entregadores próprios, registrados em regime CLT. Outros operam com motoboys autônomos ou terceirizados. A forma de vínculo só pode ser confirmada pela empresa ou pela Justiça do Trabalho, caso haja disputa.
Quais crimes podem ser imputados aos autores?
A depender da investigação, podem ser analisados os crimes de dano qualificado, perigo comum pelo uso de explosivos em via pública e, eventualmente, associação criminosa, se comprovada a ação coletiva previamente combinada.
O que ainda se apura
Até a última atualização, não havia posição oficial da Polícia Militar de Santa Catarina em Barra Velha sobre o andamento da investigação, nem manifestação formal da empresa Vila do Chaves sobre o caso. O boletim de ocorrência registrado pela família seguia em apuração. A reportagem do Jornal Razão procurou as partes envolvidas e aguarda retorno.
