A Prefeitura de Joinville realizou na manhã desta quarta-feira (2), véspera do feriado de Páscoa, uma nova operação de demolição de construções na comunidade do Juquiá, no bairro Ulysses Guimarães, zona Sul da cidade. A ação gerou forte tensão no local e repercutiu rapidamente nas redes sociais.
Conforme vídeos e imagens divulgados nas redes sociais, um homem foi imobilizado por agentes após resistir à saída de sua residência no momento da derrubada. As imagens mostram a presença de policiais militares fardados e guardas municipais em meio às casas simples de madeira, em ruas de terra enlameada.
A condução da operação levantou questionamentos entre moradores e internautas, tanto pela quantidade de agentes empregados quanto pela escolha da data, em plena Semana Santa. Segundo relatos enviados ao Jornal Razão, as famílias que vivem na região foram surpreendidas pela ação e questionam a ausência de alternativas concretas de moradia por parte da Assistência Social.
As publicações sobre o caso acumularam centenas de comentários em poucas horas, evidenciando a divisão de opiniões na população. Parte dos internautas defende que as construções estavam em área irregular e que a lei deve ser cumprida. Outra parte questiona por que o poder público não oferece moradia a quem não tem condições de pagar aluguel em Joinville.
A operação desta quarta é a mais recente de uma série de ações da Prefeitura na região do Juquiá. Em 26 de março, quatro imóveis em construção foram derrubados por uma retroescavadeira na mesma área, que é classificada como Área de Preservação Permanente por se tratar de região de manguezal.
Em fevereiro, outras três construções foram demolidas na comunidade Rio Velho, também no bairro Ulysses Guimarães, e moradores relataram que a demolição ocorreu sem aviso prévio e sem a apresentação antecipada de qualquer documento oficial.
Em julho de 2025, 11 famílias tiveram as casas destruídas no loteamento José Loureiro e moradores chegaram a interditar a rua Dilson Funaro em protesto. Em dezembro do mesmo ano, a situação se agravou quando a Guarda Municipal e a Celesc cortaram a energia elétrica de mais de 28 lares na comunidade, gerando novos protestos.
A Prefeitura sustenta que as ações seguem o Decreto Municipal 36.070 de 2019, que autoriza a remoção de edificações irregulares em áreas públicas e de preservação ambiental. Em nota divulgada em operações anteriores, o município afirmou que os responsáveis pelas construções podem ser notificados por crime ambiental e que a abertura ou comercialização de lotes em Áreas de Preservação Permanente é prática ilegal.
Crise habitacional
O histórico de conflito fundiário na região remonta a mais de duas décadas. A comunidade do Juquiá abriga cerca de 800 famílias. Metade já teve moradias regularizadas ao longo dos anos, após mobilizações e negociações com diferentes gestões municipais. Segundo moradores, a administração do prefeito Adriano Silva (Novo) teria firmado um compromisso de não realizar novas demolições, mas o acordo não teria sido cumprido.
Os números do déficit habitacional de Joinville ajudam a entender por que as ocupações continuam. Mais de 21 mil famílias aguardam na fila da Secretaria Municipal de Habitação. Das famílias cadastradas, 64% têm renda de até um salário mínimo, 40,7% são chefiadas por mulheres e 19% possuem algum membro com deficiência.
A comunidade aponta o alto custo dos aluguéis como o principal fator que empurra trabalhadores para áreas irregulares. A vereadora Vanessa da Rosa (PT), presidente da Comissão de Cidadania da Câmara, tem cobrado a criação de um programa habitacional de maior escala.
Já o secretário municipal de Segurança Pública, Paulo Rigo, defendeu em ocasião anterior que as operações atendem à legislação e alertou que quem comercializa lotes irregulares e constrói nesses locais comete crime. A secretária de Habitação, Tereza Couto, afirmou que há estudos para regularizar a área, mas que novas ocupações devem ser evitadas.
A Prefeitura de Joinville ainda não se manifestou oficialmente sobre a operação desta quarta-feira. O caso segue em apuração.

