Quem mora em Tijucas conhece o roteiro de cor. Chove forte, a água sobe, ruas desaparecem, casas alagam. Esse cenário se repete há décadas, sempre nos mesmos pontos, sempre com as mesmas consequências. A diferença agora, segundo a Prefeitura, é que esse ciclo está com os dias contados.
Em entrevista ao Jornal Razão, o prefeito Maickon Sgrott (PL) apresentou o plano de ação mais detalhado já tornado público para enfrentar os problemas crônicos de drenagem da cidade.
Não se trata apenas de planejamento. Há obras já concluídas com resultado comprovado, projetos de engenharia prontos, outros em andamento, licitações em curso e intervenções emergenciais que começam em menos de 30 dias com equipes da própria Prefeitura. No total, mais de 20 ruas estão no cronograma.
O diagnóstico: tubulações inadequadas em praticamente toda a cidade
O problema de Tijucas não é apenas a chuva. A cidade cresceu ao longo de décadas sobre uma rede de drenagem subdimensionada, com tubulações antigas que nunca foram substituídas. Em muitas ruas, os tubos simplesmente não dão conta do volume de água. Em outras, a infraestrutura de drenagem sequer existe. Tudo isso numa cidade constituída ao redor do Rio Tijucas, onde todo o sistema de escoamento desemboca.
Conforme a gestão, a Prefeitura mapeou os pontos críticos, elaborou um cronograma técnico e dividiu a execução em fases, respeitando a capacidade orçamentária do município. Cada rua exige projeto de engenharia individual. Abrir todas as frentes ao mesmo tempo colapsaria a cidade.
As primeiras intervenções já foram feitas e a chuva desta semana provou o resultado
O projeto piloto da gestão foi executado num dos pontos mais antigos de alagamento da cidade: o trecho da Avenida Bayer Filho na altura da Fácilvel Veículos, da Dorvalino Motos e da Inovacar Veículos. Ali, a drenagem dependia de uma tubulação minúscula, incapaz de dar vazão à água. A obra começou no dia 6 de janeiro, durou 60 dias e refez toda a estrutura. Na noite da última sexta-feira, quando Tijucas registrou 125 milímetros de chuva em apenas seis horas, mais que o dobro da segunda cidade mais atingida, o ponto não alagou.

No bairro Morretes, um trecho específico castigava residências a cada chuva. A Prefeitura rasgou a tubulação antiga em extensão considerável e reconstruiu parte da rede. Conforme a gestão, a situação melhorou e várias casas deixaram de alagar com a mesma intensidade, mas o problema ainda não está 100% resolvido. A administração precisa finalizar a negociação de um terreno na região para desviar a tubulação por outro trajeto e garantir eficiência total no escoamento.
Na Avenida Emília Ramos, que faz a ligação da região da Maioria com os fundos da Rua Bathuel de Oliveira e do novo Koch, todas as tubulações estavam inadequadas. Bastava uma chuva moderada para a água tomar conta. A intervenção nesse trecho está em andamento, mas ainda não foi concluída. Conforme a gestão, uma parte da obra na Rua Bathuel de Oliveira havia sido executada no ano passado, porém não ficou adequada, e a Prefeitura está refazendo a intervenção. A finalização depende da autorização do proprietário de um terreno na região para viabilizar o novo traçado da rede.
Hercílio Luz: obra parada por mais de um ano foi retomada e já deu resultado
Na Avenida Hercílio Luz, a situação era ainda mais emblemática. A obra de pavimentação e drenagem ficou paralisada por mais de um ano na gestão anterior. A atual administração quitou os débitos pendentes e retomou os trabalhos. Após a conclusão do asfaltamento, foram instaladas duas tubulações novas de 80 centímetros cada, substituindo a rede antiga que já não dava conta do escoamento.
Com a chuva desta sexta, a Avenida Hercílio Luz não registrou alagamento.
Na mesma região, os loteamentos Mata Atlântica 1 e 2 estão recebendo obra de esgotamento sanitário depois de dez anos sem nenhuma intervenção de saneamento.
Mais de 20 ruas no cronograma: projetos prontos e em andamento
A Prefeitura dividiu as intervenções em dois grupos. O primeiro reúne as ruas cujos projetos de engenharia já estão prontos: Rua Manoel Nahum de Brito, Jardim Portobello, que na prática envolve três ruas, e Terra Nova. Essas são as mais avançadas no processo de licitação.
O segundo grupo reúne ruas cujos projetos estão em elaboração ou em fase final: Rua Antônio Apolônio Vargas, Rua Petrônio Ávila, Rua 13 de Maio em dois trechos, Rua Marechal Deodoro, Rua Euclides Francisco Peixoto e Rua Taxista Maicon. Também estão no cronograma a Avenida Coleira, em seu trecho final, e a “rua do Posto Chiquinho”.
São vias com problemas de décadas. Em muitas delas, o pavimento precisará ser inteiramente quebrado para que a tubulação nova entre.
Conforme a gestão, a intervenção nas imediações do Jardim Porto Belo envolve três ruas e mais uma quarta via que passa na frente do anfiteatro, ao lado do Tijucas Clube e da Promo Fashion, cortando até o rio. A obra é considerada possivelmente a mais importante de todo o plano porque vai implantar uma rede de macrodrenagem capaz de atender não apenas aquelas ruas, mas toda a região central que hoje desagua naquele ponto e sobrecarrega a tubulação existente, gerando impacto em cadeia em outras áreas da cidade.
Macrodrenagem: solução de fundo para os pontos mais graves
Além das obras rua a rua, a Prefeitura vai executar obras de macrodrenagem em pontos estratégicos. Na Rua Antônio Apolônio Vargas, por exemplo, a intervenção é dupla. Além da obra da própria rua, será construída uma rede de macrodrenagem que vai passar na frente do Casarão Gallotti até o rio, para atender quatro ruas de uma vez: Raul Bayer Laus, Caio Jonas Portella, Cel. Conceição e a própria Apolônio Vargas.
Esse tipo de obra resolve o problema na raiz. Em vez de apenas trocar o tubo de uma rua, a macrodrenagem cria um canal de escoamento que atende toda uma microbacia, impedindo que a água de várias vias se acumule num único ponto e provoque alagamento.
Pontos críticos não vão esperar licitação
Cinco trechos considerados extremamente graves terão obras antecipadas, executadas com equipes da própria Prefeitura. As ruas Raul Bayer Laus, Ciriema, Rouxinol, Bentiví e Caio Jonas Portella devem receber intervenção num prazo de 20 a 30 dias.
Após a finalização desses serviços, estimados entre 60 e 90 dias, a administração iniciará intervenções nas ruas Bouiteux e Petrônio Ávila, especialmente na parte mais próxima da praia.
Mais equipes na rua e padrão técnico pensado para o futuro
Para dar conta do ritmo, a Prefeitura reforçou as frentes de trabalho, inclusive com mão de obra de presos, que já atuam nas obras. O planejamento para 2026 foi estruturado ao longo de 2025.
Todas as novas intervenções de drenagem estão sendo executadas com um diferencial técnico que nenhuma rede antiga de Tijucas possuía: postos de inspeção com grades removíveis, que permitem limpeza periódica sem necessidade de quebrar a via. O modelo é considerado atualizado e pensado para evitar que os mesmos problemas se repitam no futuro.
Dragagem do rio e grandes obras completam o plano
Além das intervenções nas ruas, a gestão informou que já protocolou o pedido para dragagem da Boca da Barra do Rio Tijucas e do Rio Santa Luzia, com recursos repassados pelo governador Jorginho Mello (PL). A medida é considerada estratégica porque todo o sistema de drenagem de Tijucas desemboca no rio. Se ele não tem vazão suficiente, a cidade alaga independentemente da qualidade da tubulação instalada nas ruas.
No horizonte de grandes obras, a Prefeitura também trabalha nos projetos dos Molhes, de uma nova Ponte, com projeto previsto para 30 de março, e de um novo Ginásio, também com projeto em elaboração.
Conforme a Prefeitura, Tijucas tem hoje não apenas um diagnóstico dos problemas. Tem um plano para executar, com obras entregues, resultados comprovados pela chuva desta semana e um cronograma de mais de 20 ruas que avança nos próximos meses. A promessa da gestão é que os alagamentos crônicos que marcam a cidade há décadas estão, de fato, com os dias contados.

