Caso Thamily: namorado de jovem baleada na cabeça em operação policial em Criciúma é condenado

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Thamily Venâncio Ereno tinha 23 anos, estudava odontologia e era conhecida entre amigos como “Thamy”. Frequentava a torcida organizada Os Tigres, do Criciúma Esporte Clube, e namorava Kauan de Oliveira Filastro desde outubro de 2024.

Na tarde de 21 de março de 2025, ela estava dentro de um carro de aplicativo no bairro São Sebastião, em Criciúma, ao lado de Kauan. A Polícia Civil tentou abordar o veículo para cumprir o mandado de prisão contra ele. O motorista não obedeceu à ordem de parada, engatou marcha ré e avançou contra os agentes. Policiais efetuaram disparos. Um deles atingiu a cabeça de Thamily.

Reprodução / Sentença

Ela foi socorrida e levada ao Hospital São José, mas teve a morte cerebral confirmada dois dias depois, em 23 de março de 2025. A Polícia Civil concluiu que o policial agiu em legítima defesa e responsabilizou o motorista do aplicativo pela situação que provocou o disparo.

A morte da jovem abalou Criciúma. A torcida Os Tigres publicou nota de pesar. Amigos e familiares prestaram homenagens. O caso levantou debates sobre procedimentos em abordagens policiais e sobre o uso de arma de fogo em operações. Agora, quase um ano depois, a Justiça de Santa Catarina encerrou a ação penal que deu origem àquela operação.

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A sentença e as condenações

A sentença, assinada em 3 de março de 2026 pela Vara Estadual de Organizações Criminosas, obtida com exclusividade pelo Jornal Razão, condenou os dois homens que eram alvo da investigação: Mateus Lima Fernandes, de vulgo “Playboy”, a 18 anos e 8 meses de reclusão em regime fechado, e Kauan de Oliveira Filastro, conhecido como “Zika”, a 15 anos de reclusão e 1 ano de detenção, também em regime fechado.

Uma terceira ré, que era companheira de Mateus à época, foi absolvida de todas as acusações por insuficiência de provas. Para entender quem era quem nessa história, é preciso voltar ao final de 2024.

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Quem é “Playboy” e qual era seu papel na facção

Mateus Lima Fernandes, vulgo “Playboy”, era o “disciplina” do Primeiro Grupo Catarinense (PGC) na região sul de Criciúma. Conforme a sentença, a função de disciplina dentro da facção consiste em “decidir pela aplicação de sanções, participar do núcleo decisório da facção, elaborar relatórios mensais das quebradas, manter cadastro das bocas e relatar as punições ao CDC”, a chamada central de crédito da organização.

Mateus era, portanto, um dos pilares operacionais da facção nos bairros Santa Luzia, Progresso e Baixada. Além de comandar a dinâmica do crime naquela área, ele mantinha um “paiol”, um local de armazenamento de armas, munições e objetos destinados ao uso da facção.

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Quem é “Zika” e a ligação com Thamily

Kauan de Oliveira Filastro, vulgo “Zika”, era subordinado direto de Mateus. A Justiça concluiu que, “ainda que Kauan não tenha sido batizado oficialmente, não há dúvidas de que ele atuava como companheiro da facção criminosa, prestando auxílio a Mateus, disciplina geral da região”.

Mateus, inclusive, tentava formalizar a entrada de Kauan no PGC. Foi localizada conversa em que ele pedia a outro integrante a “cartilha” da facção, dizendo que queria “batizar” Kauan, a quem chamava de “afilhado”.

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Como a investigação começou

A investigação começou no final de 2024, quando Mateus se envolveu num incidente de disparo de arma de fogo contra sua namorada da época, em Balneário Rincão. As discrepâncias na versão dele levaram a Justiça a autorizar a quebra de sigilo telemático dos backups e da conta Apple de Mateus.

A partir dos dados extraídos, conforme a sentença, “foram localizadas imagens e conversas de WhatsApp que corroboravam a denúncia, inclusive o próprio Mateus se identificando como disciplina do bairro Santa Luzia e impondo sanção a indivíduo de nome Marcos, consistente no pagamento de R$ 600,00 por uma caixa de munição”.

Em janeiro de 2025, uma denúncia anônima chegou ao Departamento de Investigação Criminal de Criciúma confirmando o papel de Mateus como integrante do PGC e responsável pelo paiol.

O monitoramento e as buscas

A Polícia Civil realizou monitoramento de veículos e diligências de campo para identificar os endereços vinculados aos investigados. Conforme os relatórios de investigação citados na sentença, a equipe identificou que Mateus utilizava um veículo Renault Sandero preto para deslocamentos. Ao acompanhar o automóvel, chegaram ao endereço de Kauan no bairro Mina União e, posteriormente, a um segundo endereço no bairro Vila Floresta II, onde Mateus vivia com sua companheira.

Com base nesses elementos, a autoridade policial representou pela prisão temporária de Mateus e pelo cumprimento de seis mandados de busca e apreensão. As operações foram deflagradas em fevereiro de 2025.

O que foi encontrado no paiol de Mateus

Na casa de madeira verde no bairro Santa Luzia, a polícia encontrou 30 comprimidos de ecstasy, cerca de 1,7 grama de cocaína, 7 gramas de maconha e 18 munições calibre .40 S&W de uso restrito. A casa estava fechada e aparentemente desocupada no momento do cumprimento.

O que foi encontrado no endereço de Kauan

No bairro Mina União, foram apreendidos mais de 1,3 quilo de maconha, 10 munições calibre .380, duas balanças de precisão, rolos de papel filme usados no fracionamento de drogas, caderno de anotações e uma máquina de cartão. No local também foram encontrados um cartão do SUS em nome de Kauan e uma fotografia dele com Thamily.

O que os celulares revelaram

A análise forense dos celulares apreendidos revelou a engrenagem do esquema criminoso.

No aparelho de Mateus, foram localizados diversos vídeos e fotos com drogas embaladas para venda. Em um dos vídeos citados na sentença, “Mateus apareceu com Kauan no elevador, oportunidade em que o segundo está no telefone falando sobre o fornecimento de drogas”. A Justiça considerou que esse vídeo “já mostra de forma clara o vínculo subjetivo entre Mateus e Kauan para a prática de tráfico de entorpecentes”.

O padrão de funcionamento era claro: conforme o policial civil Adilson de Oliveira Júnior relatou em juízo, Mateus, “procurado por usuário para adquirir drogas, afirmou que enviaria um guri para entregar e, em seguida, repassou ao usuário o contato de Kauan, responsável pela entrega”. Kauan, por sua vez, usava o status do WhatsApp para anunciar maconha de variedades “exóticas”, com tabelas de preços e vídeos das drogas disponíveis.

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O comércio ilegal de armas

A dupla também operava no comércio ilegal de armas de fogo. Foram localizados diálogos entre Mateus e Kauan em que eles negociavam a venda de uma submetralhadora caseira automática calibre .380, discutindo valores, condições e reparos. Dias depois da conversa, Kauan divulgou a mesma arma em seu status do WhatsApp para potenciais compradores.

Mateus mantinha ainda conversas com diferentes interlocutores sobre a venda de metralhadoras, carabinas caseiras e uma pistola Taurus G2C, sempre com fotos e vídeos das armas em funcionamento. A sentença destaca que foram juntados “diversos vídeos de armas, com Mateus e outros indivíduos expondo o produto, efetuando disparos e realizando reparos ou alterações no mecanismo da arma”.

O PGC e a estrutura da facção

A Vara Estadual de Organizações Criminosas reconheceu o PGC como organização criminosa com estrutura hierárquica definida, orientada por estatuto próprio, com primeiro e segundo ministérios, sintonias e disciplinas. A facção nasceu em 2003 na Penitenciária da Capital e ganhou notoriedade com a onda de atentados que atingiu Santa Catarina em 2012.

As penas e a dosimetria

Na dosimetria, Mateus recebeu a agravante por exercício de cargo de comando e a majorante por emprego de arma de fogo pela organização. A Justiça, porém, afastou a causa de aumento por conexão com o Comando Vermelho, por falta de provas concretas de cooperação operacional no caso. Também afastou a majorante de uso de arma no tráfico, entendendo que o comércio de armas era praticado com desígnios autônomos.

A condenação final de Mateus ficou em 18 anos e 8 meses de reclusão e 533 dias-multa por integrar organização criminosa armada com cargo de comando, tráfico de drogas, posse de munição de uso restrito e comércio ilegal de arma de fogo.

Kauan foi condenado a 15 anos de reclusão e 1 ano de detenção, além de 533 dias-multa, pelos mesmos crimes, com a diferença de que a posse de munição foi desclassificada para uso permitido, por se tratar de calibre .380.

Ambos tiveram o direito de recorrer em liberdade negado. A Justiça considerou que “a prisão provisória continua sendo necessária para garantia da ordem pública”. Mateus está preso desde 13 de fevereiro de 2025. Kauan, desde 21 de março de 2025, o mesmo dia em que Thamily foi baleada na operação que cumpriu seu mandado de prisão.

Thamily tinha apenas 23 anos

O depoimento do pai de Thamily

O pai de Thamily prestou depoimento como testemunha de defesa de Kauan. Confirmou que a filha manteve relacionamento com o acusado entre outubro de 2024 e março de 2025, e afirmou nunca ter tido conhecimento de práticas ilícitas por parte dele. A Justiça determinou a devolução do celular de Thamily a um familiar, “de preferência seu pai”, por não haver vínculo direto com a prática delitiva.

Próximos passos

A sentença determinou ainda a destruição das drogas apreendidas, o perdimento dos celulares dos condenados e a destruição dos demais objetos ligados aos crimes. O caso segue em prazo recursal perante a Vara Estadual de Organizações Criminosas de Santa Catarina.

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